Um vídeo que circula intensamente nas redes sociais tem provocado um amplo debate em Cuiabá, a capital mato-grossense conhecida como "Cidade Verde". As imagens revelam uma drástica transformação na Rua Baltazar Navarro, no bairro Bandeirantes, mostrando o "antes e depois" da retirada de árvores em um período de cerca de um ano. A sequência visual, que confronta a paisagem anterior, mais sombreada e arborizada, com a atual, significativamente mais exposta, reacende uma discussão crucial sobre a gestão da arborização e o planejamento urbano em uma das metrópoles mais quentes do Brasil.
O registro audiovisual, que rapidamente viralizou, expõe não apenas uma mudança estética, mas levanta questionamentos profundos sobre o equilíbrio entre o desenvolvimento urbano e a preservação ambiental. Em resposta à repercussão, a Prefeitura de Cuiabá, por meio da Empresa Cuiabana de Zeladoria e Serviços Urbanos (Limpurb), informou que a remoção de cinco espécimes de figueira (Ficus benjamina), localizadas em um imóvel da via, foi devidamente autorizada. O Governo de Mato Grosso, por sua vez, também confirmou a autorização emitida pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano.
Riscos e Compensações: A Justificativa Oficial
A administração municipal justificou a intervenção com base em uma avaliação técnica que identificou "risco potencial à segurança da população e à infraestrutura urbana". Segundo a nota da prefeitura, as figueiras apresentavam "porte elevado, raízes expostas e avançado estado de senescência", além de estarem comprometidas por cupins e apodrecimento do caule. Tais fatores, argumentou o município, "comprometiam a estabilidade estrutural das árvores e aumentavam o risco de queda", configurando uma ameaça real a pedestres e edificações.
Além dos problemas estruturais visíveis, a análise apontou que as raízes da espécie Ficus benjamina são notoriamente agressivas, podendo causar danos consideráveis a calçadas, tubulações e outras estruturas subterrâneas e superficiais. A prefeitura reiterou que esta espécie é considerada inadequada para arborização urbana, conforme previsto em decreto municipal, justamente por seu porte e o comportamento invasivo de seu sistema radicular, que frequentemente resulta em problemas para o mobiliário urbano e a pavimentação.
Como medida compensatória, e em conformidade com a legislação ambiental vigente, a autorização da Limpurb exige o replantio imediato de cinco árvores nativas no mesmo terreno. As mudas deverão ter uma altura mínima de 1,80 metro e diâmetro de pelo menos dois centímetros, seguindo critérios técnicos estabelecidos pelo município, buscando mitigar o impacto da remoção e promover a substituição por espécies mais adequadas ao ambiente urbano e à ecologia local.
O Dilema da "Cidade Verde": Perda de Áreas Verdes e o Impacto Climático
O caso da Rua Baltazar Navarro é um microcosmo de um desafio maior enfrentado por Cuiabá. A capital mato-grossense, que historicamente ostenta o epíteto de "Cidade Verde", tem visto suas áreas verdes diminuírem drasticamente nas últimas décadas. Um estudo divulgado em 2019 pelo Instituto Centro de Vida (ICV), com base em dados do Projeto MapBiomas, revelou que Cuiabá perdeu alarmantes 17% de suas áreas verdes em 30 anos, o equivalente a mais de 55 mil hectares de vegetação – uma área que supera em 714 vezes o tamanho do Parque Mãe Bonifácia, um dos principais pulmões da cidade.
Essa redução das áreas verdes urbanas e periurbanas não é um problema meramente estético; ela acarreta sérias consequências ambientais e sociais. Entre os impactos mais imediatos estão o aumento da sensação térmica, a degradação de habitats naturais de fauna e flora, e alterações em ciclos hidrológicos e em outros processos naturais dos ecossistemas. Em uma cidade que frequentemente registra temperaturas acima dos 40°C, a presença de árvores e áreas verdes é fundamental para o conforto térmico e a qualidade de vida da população.
Cuiabá e o Calor Urbano: A Voz dos Especialistas
Um mapeamento realizado pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) reforça essa preocupação, apontando que a expansão urbana de muitas cidades do estado ocorreu sem o planejamento adequado, contribuindo para a retirada indiscriminada de vegetação nativa. Uma pesquisa da UFMT, inclusive, revelou que apenas 26% da área de Cuiabá é arborizada, um índice muito abaixo das diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) para cidades saudáveis, que recomendam pelo menos 9 metros quadrados de área verde por habitante.
O presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam), Carlos Bocuhy, contextualiza a gravidade da situação. "Quando não há arborização e a cidade se apresenta com concreto e cimento, ela fica quente porque retém o calor do sol", explica. Ele detalha os múltiplos benefícios das árvores: "A partir do momento em que há arborização, há dois efeitos: as áreas cobertas por vegetação contribuem para a diminuição do calor, então há sombra e conforto térmico. Por outro lado, as áreas arborizadas soltam gotículas na atmosfera que podem resfriar o ambiente a até 50 metros de distância das árvores", demonstrando o papel vital da vegetação no microclima urbano.
O Caminho para um Futuro Mais Verde e Planejado
O episódio na Rua Baltazar Navarro, amplificado pelas redes sociais, serve como um alerta para a necessidade de um planejamento urbano mais integrado e sustentável em Cuiabá. A retirada de árvores, mesmo quando justificada por questões de segurança e infraestrutura, deve ser parte de uma política maior que considere o valor ecológico, social e climático da arborização. A escolha de espécies adequadas, a fiscalização rigorosa do replantio compensatório e o investimento em áreas verdes bem distribuídas são passos essenciais para que a "Cidade Verde" possa, de fato, honrar seu nome e oferecer qualidade de vida em um cenário de mudanças climáticas.
O debate gerado pelo vídeo é um reflexo do crescente engajamento da população com questões ambientais urbanas. Monitorar a execução das medidas compensatórias e exigir transparência nas decisões que afetam o patrimônio ambiental da cidade são responsabilidades compartilhadas entre poder público e sociedade civil. O desafio é transformar o clamor das redes sociais em ações concretas que garantam um futuro mais verde e resiliente para Cuiabá.
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Fonte: https://g1.globo.com