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Violência digital contra mulheres: denúncias disparam 188% em um ano, revelam dados do Ministério das Mulheres

© Arte Ministério das Mulheres

O cenário da violência contra mulheres no Brasil revela um preocupante avanço para o ambiente digital. Dados recém-divulgados pelo Ministério das Mulheres, nesta segunda-feira (22), apontam um crescimento assustador de 188,6% nas denúncias de violência digital em apenas um ano. Esse salto acende um alerta sobre a segurança feminina no mundo conectado e a urgência de respostas eficazes para proteger vítimas de um tipo de agressão que se dissemina com a mesma velocidade da internet.

Entre janeiro e maio deste ano, a Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 – registrou 16.725 denúncias de violência digital. Para contextualizar a dimensão desse aumento, no mesmo período do ano anterior, o serviço havia recebido 5.795 ocorrências. Os números evidenciam que plataformas como redes sociais, aplicativos de mensagens, jogos online e outros espaços virtuais se tornaram, para muitos agressores, ferramentas para controlar, ameaçar, humilhar, expor indevidamente, perseguir, intimidar, chantagear ou, de alguma forma, ferir a dignidade e a integridade de meninas e mulheres.

A Luta contra a Subnotificação: Mais Denúncias, Mais Confiança

A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, trouxe uma perspectiva crucial sobre esse aumento. Em entrevista à imprensa, ela ponderou que, embora o crescimento seja alarmante, pode também refletir uma redução nas subnotificações, ou seja, mais mulheres estão se sentindo seguras para denunciar. “Ter os dados da realidade é muito importante. A gente só vai acertar nas respostas pelos governos, políticas públicas, quando tiver mais realismo nas informações”, afirmou a ministra.

Márcia Lopes atribui a possível queda das subnotificações a dois fatores interligados: o aumento da confiança no serviço do Ligue 180 e um aprimoramento contínuo na qualidade e no acolhimento oferecido pelo canal. Essa percepção de segurança e eficácia pode ser um incentivo vital para que mais vítimas quebrem o silêncio e busquem ajuda, transformando um dado preocupante em um sinal de maior empoderamento e busca por justiça.

Ligue 180: Adaptação e Capacitação para a Nova Realidade

Diante da crescente complexidade da violência digital, o Ministério das Mulheres tem agido proativamente. Em parceria com a Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom/PR), o órgão realizou, de 9 de junho até a última segunda-feira (22), um programa de qualificação intensivo para cerca de 350 atendentes da Central de Atendimento à Mulher. A iniciativa visa adequar o serviço à especificidade da violência cometida no ambiente online.

Ellen Costa, coordenadora geral do Ligue 180, esclareceu que, embora a Central já recebesse denúncias de violência digital, a atualização do protocolo de atendimento é fundamental. O objetivo é capacitar as profissionais para orientar as vítimas de forma mais precisa sobre os passos a seguir em casos de crimes virtuais. “Nesse momento que vivemos, com a violência que acaba sendo realizada nos meios digitais, é importante a gente ter as atendentes qualificadas para saber, em um atendimento virtual, identificar esses tipos de violência e repassar essa informação para a população. É um diferencial”, destacou Costa.

Além da capacitação, a modernização dos dados do Ligue 180 inclui a atualização do formulário de atendimento, com a inclusão de campos específicos para os diferentes tipos de violência digital. Segundo Ellen Costa, essa medida serve para demonstrar que o serviço transcende as orientações sobre a Lei Maria da Penha, conectando-se diretamente com a realidade multifacetada e em constante evolução enfrentada por meninas e mulheres na sociedade contemporânea.

O Perfil das Vítimas e a Dimensão Social da Violência Digital

A Central de Atendimento à Mulher é um termômetro da violência de gênero no país, registrando, em média, quase 3 mil ocorrências por dia em todos os seus canais. Cerca de 30% desses atendimentos se concretizam em denúncias, enquanto o restante corresponde a solicitações de informação e orientação. Os dados mais recentes revelam que a violência no espaço digital deixou a sétima posição entre os tipos de violência mais denunciados no ano anterior para figurar na quinta colocação neste ano, demonstrando a escalada e a urgência do problema.

É fundamental entender que a violência digital não afeta todas as mulheres da mesma forma, revelando intersecções complexas de vulnerabilidade. Das ocorrências registradas pelo Ligue 180 no ano passado, quase metade (48%) das vítimas eram mulheres negras (sendo 37,5% pardas e 10,5% pretas), seguidas por mulheres brancas (34,2%). Essa disparidade étnico-racial sublinha como o racismo estrutural se manifesta também no ambiente digital, expondo grupos específicos a maiores riscos.

A faixa etária mais afetada é a de 35 a 44 anos, responsável por 21,6% dos casos. Ao ampliar o recorte para mulheres entre 25 e 49 anos, esse grupo representa mais da metade (50,8%) do total. O levantamento também indica barreiras socioeconômicas e educacionais: 25,7% das vítimas no ano anterior tinham ensino médio completo, e uma parcela significativa – quase metade (45,9%) – não possui rendimentos ou ganha até um salário-mínimo. Esses dados reforçam a necessidade de políticas públicas inclusivas que considerem as múltiplas vulnerabilidades das vítimas.

Marco Legal: O Decreto Presidencial e a Proteção na Internet

A capacitação das atendentes e a atualização dos protocolos do Ligue 180 estão em linha com o Decreto Presidencial nº 12.976, que entrou em vigor na última sexta-feira (19). Assinado há 60 dias, o decreto representa um marco na proteção de mulheres na internet, disciplinando os deveres das plataformas digitais diante de crimes de violência contra mulheres online e instituindo mecanismos para prevenção e combate a esse tipo de agressão.

Marina Pita, diretora na Secretaria de Políticas Digitais da Secom/PR, ressaltou a importância da legislação para as jornalistas, explicando que o decreto busca criar um ambiente online seguro que não apenas garanta a liberdade de expressão, mas também assegure a permanência das mulheres na internet. “Tanta violência no digital expulsa as mulheres desse ambiente. Nós estamos garantindo a liberdade de expressão [no meio digital] ao garantir que as mulheres possam continuar se manifestando e que não sejam expulsas”, afirmou Pita, destacando a relevância da medida para a inclusão e participação feminina plena no espaço digital.

A escalada das denúncias de violência digital contra mulheres é um espelho das transformações sociais e tecnológicas que impactam diretamente a vida de milhões. A resposta do Estado, com a modernização do Ligue 180 e a implementação de marcos legais como o decreto presidencial, mostra um reconhecimento da gravidade do problema e um esforço para combatê-lo. Contudo, a efetividade dessas medidas depende também de uma mudança cultural e de um engajamento coletivo para construir um ambiente digital mais seguro e respeitoso para todos. É crucial que a sociedade civil, as empresas de tecnologia e os governos continuem trabalhando juntos para garantir que a internet seja um espaço de conexão e oportunidades, e não de medo e agressão.

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Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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