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Julgamento do Caso Renato Nery: data é definida para caseiro acusado de homicídio em Cuiabá

G1

Dois anos após o assassinato que abalou a capital mato-grossense, a Justiça de Cuiabá definiu uma data para o julgamento de Alex Roberto de Queiroz Silva, o caseiro acusado de ser o executor do advogado Renato Gomes Nery, de 72 anos. O Tribunal do Júri está agendado para o dia 15 de julho de 2026, às 9h. A decisão, proferida nesta sexta-feira (26) pelo juiz Marcos Faleiros da Silva, da 1ª Vara Criminal de Cuiabá, marca um passo crucial na busca por justiça para um crime que expôs uma complexa rede de interesses e um alegado esquema de homicídio por encomenda, envolvendo inclusive agentes da segurança pública.

O processo, que tramita como Ação Penal de Competência do Júri, foi considerado apto para ser levado a plenário após manifestações do Ministério Público e da defesa. Ambas as partes indicaram as mesmas testemunhas para depor, entre elas Kaster Huttner Garcia e Renata Moreira Gomes Nery. O juiz determinou que a estrutura de internet das testemunhas seja verificada por um oficial de Justiça, em preparação para uma eventual participação por videoconferência. Objetos apreendidos durante a investigação poderão ser apresentados, exceto armas de fogo, conforme as normativas da Corregedoria-Geral da Justiça.

Um Homicídio com Marcadas Suspeitas de Crime de Mando

A morte do advogado Renato Gomes Nery, uma figura conhecida e respeitada em Cuiabá, ocorreu em julho de 2024. Ele foi emboscado e baleado fatalmente quando chegava ao seu escritório. Imagens de câmeras de segurança registraram o momento em que o atirador, supostamente Alex Roberto, já aguardava o advogado, efetuou os disparos e fugiu do local em uma motocicleta. Renato Nery não resistiu aos ferimentos e faleceu um dia depois, em 7 de julho, deixando a sociedade cuiabana consternada e levantando uma série de questionamentos sobre a motivação de tamanha brutalidade.

Desde o início, a investigação apontou para além de um crime comum, sugerindo um homicídio qualificado por motivo fútil e mediante recompensa, popularmente conhecido como 'crime de mando'. A Polícia Civil, através de uma minuciosa apuração, desvendou uma complexa teia que ligava mandantes, intermediadores e o executor, desenhando um cenário que trouxe à tona a face mais sombria da criminalidade organizada.

A Rota do Dinheiro: A Quebra de Sigilo Bancário como Peça-Chave

Um dos pilares da investigação foi a autorização judicial para a quebra de sigilo bancário, que permitiu rastrear o fluxo financeiro relacionado ao crime. As autoridades identificaram movimentações atípicas e fracionadas, além do uso de intermediários, o que levantou a suspeita de lavagem de dinheiro para ocultar a origem e o destino dos pagamentos. As transferências totalizaram cerca de R$ 215 mil, evidenciando o caráter de pagamento pela execução.

A trama financeira começou a ser desvendada em março de 2024, quando uma empresária, supostamente Julinere Goulart Bastos, apontada como uma das mandantes, realizou transferências que somavam aproximadamente R$ 200 mil. Esses valores passaram por contas de terceiros em um claro estratagema para dificultar o rastreamento. Parte desse montante, cerca de R$ 115 mil, foi utilizada na compra de um veículo registrado em nome de um terceiro. Outros R$ 40 mil foram repassados à mãe de um dos investigados, e o restante encaminhado diretamente para a conta de outro envolvido. Em 8 de março, foi identificado um pagamento direto de R$ 15 mil da mandante ao segundo investigado, consolidando a evidência de retribuição pelo crime. Dias depois, em 12 de março, um dos investigados prestou depoimento, confirmando a dinâmica de pagamento pelo assassinato.

Rede de Envolvidos: Dos Mandantes a Agentes da Segurança

As investigações da Polícia Civil resultaram na identificação de múltiplos envolvidos, cada um com um papel específico na complexa arquitetura do crime. Como mandantes, foram apontados César Jorge Sechi e a empresária Julinere Goulart Bastos. O caseiro Alex Roberto de Queiroz Silva é apontado como o atirador. A trama se adensou com o envolvimento de agentes da Polícia Militar, que, segundo as investigações, atuaram como intermediadores.

Entre os militares, o sargento da PM Heron Teixeira Pena Vieira é acusado de ter recebido dinheiro e a arma, além de ter contratado Alex para a execução. O PM Ícaro Nathan Santos Ferreira teria fornecido a arma utilizada e facilitado a transferência de parte do pagamento. Já o PM Jackson Pereira Barbosa é investigado por coordenar o crime e realizar pagamentos parciais. Além deles, outros PMs — Wailson Alessandro Medeiros Ramos, Wekcerlley Benevides de Oliveira, Leandro Cardoso e Jorge Rodrigo Martins — foram investigados por supostamente tentarem forjar um confronto envolvendo a arma do crime, buscando desviar a atenção e dificultar as provas. O envolvimento de agentes da lei em um assassinato por encomenda adiciona uma camada de gravidade ao caso, abalando a confiança pública nas instituições e gerando um debate sobre a integridade de alguns membros da corporação.

Expectativas para o Júri Popular e a Busca por Justiça

A definição da data do júri popular para julho de 2026 representa um longo, mas esperado, desdobramento processual. O Tribunal do Júri, mecanismo da justiça brasileira para crimes dolosos contra a vida, confia a decisão final a sete cidadãos leigos, representando a voz da sociedade. A expectativa é que o julgamento, com sua ampla lista de testemunhas e a possibilidade de apresentação de objetos apreendidos, traga à tona todos os detalhes e provas que levaram à acusação, buscando clarear definitivamente a dinâmica do assassinato de Renato Nery e a responsabilidade de cada um dos envolvidos.

Este caso transcende a esfera individual, tornando-se um símbolo da luta contra a impunidade em crimes complexos e de grande repercussão. Para a comunidade jurídica e a sociedade mato-grossense, o desfecho do julgamento de Alex Roberto de Queiroz Silva, e dos demais acusados em processos subsequentes, será fundamental para reafirmar a força do sistema judiciário e a crença de que, mesmo nas tramas mais intrincadas, a justiça prevalece. O Capital Política continuará acompanhando de perto os desdobramentos deste e de outros casos relevantes, oferecendo aos leitores uma cobertura aprofundada e contextualizada sobre os fatos que moldam a realidade de Mato Grosso e do Brasil.

Fonte: https://g1.globo.com

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