Em um tempo onde a Amazônia ainda era sinônimo de mistério e fronteira a ser desbravada, uma figura singular emergiu das profundezas do Xingu para se tornar lenda. Dona Francisquinha Castelo Branco da Costa Gomes, mais conhecida como Tia Chica, teve sua extraordinária história imortalizada pelo cronista Odylo Costa, filho, em um relato publicado em 1975. Nascida no Ceará e levada pela vida para a região de Altamira, no Pará, Tia Chica não foi apenas uma matriarca com uma prole impressionante, mas um símbolo vivo da resiliência e da complexidade humana que moldaram o coração do Brasil.
A Matriarca do Xingu: Entre Vidas e Lendas
Aos 67 anos, com 24 filhos e 72 netos, Tia Chica representava uma linhagem vasta e profundamente enraizada na Amazônia. Sua vida, contada a Odylo Costa, filho e a José Sarney durante um voo entre Teresina e Brasília, era um verdadeiro mosaico de experiências que desafiavam as convenções. A dimensão de sua família, um clã espalhado por diversos recantos da região, já dava a medida de sua força e influência. A própria paisagem onde se estabeleceu – o Riozinho do Anfrísio, afluente do Xingu, a mais de 350 quilômetros da foz do grande rio – era um reflexo de sua personalidade: remota, majestosa e repleta de segredos.
O acesso ao seu sítio, descrito pelo cronista, revelava a intensidade da vida na floresta: “Sobem-se onze noites e vinte e sete cachoeiras”. A descrição de ilhas “como garças verdes amanhecendo” e quedas d’água em vertigem pintava um cenário de beleza selvagem e desafios constantes, onde a natureza impunha seu ritmo e suas leis. Era nesse contexto de isolamento e exuberância que Tia Chica construía sua existência, dialogando com uma Altamira de outrora, que ela via perder seus “pescadores chegando no cair da tarde” e seus “caçadores”, evocando uma nostalgia por um tempo que se esvaía.
Uma Saga de Amores, Perdas e Reinvenções na Borracha
A chegada de Tia Chica ao Xingu, em 1926, não foi por acaso. Foi um ato de afirmação. Sua mãe, ciente de que o marido seringalista havia se envolvido com uma “cabocla”, levou a família de Fortaleza para a Amazônia para demarcar seu lugar. Esse episódio inicial já sublinhava a coragem e a determinação que marcariam toda a sua trajetória, inserindo-a diretamente no complexo universo da borracha, que ditava a economia e as migrações na região àquela época.
Seu primeiro casamento, arranjado com Francisco Meireles Acioli, do Ceará, acabou cedo, deixando-a viúva aos 19 anos. Mas Tia Chica era mulher de ação e pragmatismo, esperando apenas o tempo socialmente aceitável para o luto antes de se casar novamente, desta vez com o sergipano Anfrísio da Costa Gomes. Anfrísio era um homem de força e ternura, com quem partilhou uma intensa história de amor e lutas. Sua morte, lenta e consumida pelo desgosto após uma operação de catarata que o deixou quase cego, demonstra a profundidade dos laços que os uniam e a dimensão da dor que Tia Chica enfrentou.
Mesmo com a instabilidade econômica, como o fim abrupto do monopólio da borracha que a deixou com “seringa que não valia mais nada”, Tia Chica e Anfrísio sempre encontraram formas de recomeçar. Essa capacidade de se adaptar e reconstruir a vida após adversidades econômicas e pessoais é um testemunho da fibra de muitos que desbravaram o interior do Brasil, dependendo da extração de recursos naturais e sujeitos às flutuações do mercado global.
Família Ampliada e a Convivência na Fronteira Amazônica
A vida familiar de Tia Chica era um microcosmo da própria Amazônia: diversa, multifacetada e cheia de contrastes. Seus conselhos às filhas – “Marido é hóspede de luxo. Coisa melhor do mundo é marido. Trate bem dele e não conte besteira de empregada e de casa” – revelam uma sabedoria prática e uma visão estratégica sobre as relações, típica de quem precisava gerenciar um lar e uma família em condições desafiadoras.
Um dos aspectos mais marcantes de sua história é a aceitação e criação dos filhos de Anfrísio com mulheres indígenas. Sua frase “Olha para a cara, vê se é redonda! É redonda? Tu és meu. Teu corpo é meu. O que de ti sair me pertence” resume uma atitude de inclusão e responsabilidade parental que transcende as barreiras étnicas. Essa convivência familiar, que misturava sangue e culturas, é um exemplo potente da formação do povo brasileiro na fronteira, onde a miscigenação não era apenas biológica, mas também social e cultural. A ascensão de alguns de seus filhos a posições como coronel, capitão e médico, enquanto outros se tornaram aviadores e filhas bem-casadas, ilustra a mobilidade social e as oportunidades que, apesar das dificuldades, surgiam em uma região em formação.
O Cotidiano da Selva e os Encontros Culturais
Viver no Xingu significava lidar com desafios constantes da natureza. Cercada de água, mosquitos e, ocasionalmente, índios, Tia Chica demonstrava uma rara coragem. Seu medo, confessava, era apenas de onças – “aqueles grandes bichos elásticos desarvorados de fome” –, um contraste com a ausência de temor em relação aos povos indígenas ou às inundações. Essa distinção revela muito sobre a hierarquia de ameaças e a percepção de “selvageria” na fronteira, onde o perigo animal era muitas vezes mais iminente que o humano.
A relação com os povos originários é descrita como complexa, mas de mútua dependência. Se, no início, havia “índio bravo”, com o tempo, “ficaram amigos”. As índias, inclusive, eram fonte de remédios para hemorragias, buscando cascas de maribondo ou castanhas na mata. Essa troca de saberes e o apoio em momentos de necessidade sublinham uma coexistência que, embora permeada por tensões – como o episódio em que Anfrísio tentou “manter a ordem” diante de uma “tribo nova” e, ironicamente, foi visto “beliscando a bunda das índias” –, mostrava também laços de ajuda e respeito prático pela sabedoria ancestral.
Um Legado Visto pelo Cronista e a Persistência da Amazônia
A crônica de Odylo Costa, filho, publicada no jornal Última Hora, transcende o mero relato biográfico. Ela é um documento jornalístico e literário que captura a essência de um Brasil em transformação, registrando a voz e a vida de personagens que, de outra forma, poderiam cair no esquecimento. A presença de José Sarney ao lado do cronista atesta a relevância que figuras como Tia Chica tinham para a compreensão de um Brasil profundo, um país moldado pela experiência de seus pioneiros.
A história de Tia Chica, embora vivida em um contexto anterior às grandes obras de infraestrutura como a Transamazônica ou a Usina de Belo Monte, serve como um poderoso antecedente para entender a dinâmica humana e ambiental da região. Sua saga de superação, de tecer laços familiares e culturais em um ambiente inóspito, de enfrentar a natureza e as intempéries econômicas, ressoa ainda hoje. Ela simboliza a alma de um Xingu que, mesmo com campo de pouso e avião, ainda sentia a falta de estradas ligando-o a Belém, e onde a modernidade chegava aos poucos, sem apagar as marcas de uma vida construída na raça e na sabedoria da floresta.
A vida de Tia Chica é um convite à reflexão sobre a formação do Brasil e sobre a riqueza das histórias que emergem das fronteiras geográficas e culturais. Continuar acompanhando as narrativas que moldam nosso país, como esta, é fundamental para compreender as complexidades do presente e os desafios do futuro. No Capital Política, estamos comprometidos em trazer à tona essas vozes e contextos, oferecendo informação relevante e aprofundada para que você, leitor, possa formar sua própria leitura crítica sobre o Brasil e o mundo.
Fonte: https://www.metropoles.com