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O maior terremoto já registrado no Brasil: o abalo em Mato Grosso que (quase) ninguém sentiu

G1

Nos últimos dias, a ocorrência de tremores de baixa intensidade em localidades como Tocantins e no litoral do Rio de Janeiro reacendeu o debate sobre a atividade sísmica no Brasil, um país frequentemente percebido como seguro por estar fora das grandes zonas de encontro de placas tectônicas. No entanto, a história geológica do território brasileiro guarda registros de abalos muito mais intensos, como o maior terremoto já documentado, um evento de magnitude 6,2 que chacoalhou o interior de Mato Grosso em 1955 e, pela sua localização remota, quase passou despercebido da maioria.

O Gigante Adormecido de Mato Grosso: O Terremoto de 1955

O episódio histórico ocorreu na madrugada de 31 de janeiro de 1955, na Serra do Tombador, uma área que hoje integra o município de Juara, no noroeste mato-grossense. Naquela época, a região era praticamente desabitada e distante de qualquer centro urbano significativo. Essa particularidade geográfica foi determinante para que um evento sísmico de tamanha magnitude – comparável a tremores que causam estragos consideráveis em regiões mais populosas do globo – tivesse pouca repercussão imediata, mergulhando no esquecimento da história nacional por décadas.

Estimado em 6,2 na Escala Richter, o tremor atingiu a intensidade VII na Escala Mercalli Modificada. Este nível é considerado forte e capaz de provocar danos significativos, especialmente em construções mais frágeis e antigas. A Rede Sismográfica Brasileira (RSBR) destaca que, embora o epicentro estivesse numa área isolada, o abalo foi sentido a centenas de quilômetros de distância, inclusive na capital Cuiabá, a cerca de 380 km, com uma intensidade estimada entre IV e V na Escala Mercalli.

A Escala da Percepção: Entendendo a Intensidade Sísmica

É importante diferenciar as escalas. Enquanto a Escala Richter mede a magnitude (energia liberada) do terremoto, a Escala Mercalli (que vai de I a XII) avalia a intensidade com base nos efeitos observados – como as pessoas sentem o tremor e os danos causados às estruturas. Uma intensidade IV a V, como a sentida em Cuiabá, significa que muitas pessoas sentiram o tremor, objetos pendurados balançaram e janelas podem ter chacoalhado, mas geralmente sem danos relevantes. Já a intensidade VII, no epicentro, é caracterizada por grande susto, dificuldade de se manter em pé e danos notáveis em construções comuns.

Por Que o Brasil Tremi? A Ciência por Trás dos Abalos Intraplaca

Ao contrário do que ocorre em países como Japão e Chile, onde terremotos são frequentes devido à movimentação de placas tectônicas em suas fronteiras, o abalo em Mato Grosso não foi resultado desse tipo de encontro. Segundo especialistas como o professor Caiubi Kuhn, coordenador científico da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), o fenômeno foi um terremoto intraplaca. Isso significa que ele foi provocado por movimentações e tensões internas na própria Placa Sul-Americana.

Esses eventos intraplaca são mais raros, mas não menos potentes. Eles ocorrem devido a falhas geológicas pré-existentes na crosta continental que, sob a pressão de esforços internos acumulados ao longo de milênios, podem se reativar. O tremor de 1955, com uma profundidade estimada em pouco mais de 10 quilômetros, é considerado 'raso'. A profundidade de um terremoto é crucial, pois quanto mais raso ele for, maiores tendem a ser os seus efeitos e a percepção na superfície, potencializando o impacto na área epicentral.

A Complexa Classificação: Por Que o Acre Não Conta Como "Brasileiro"?

Uma questão comum que surge é a comparação com outros grandes tremores, como os registrados no Acre (com magnitudes de 6,8 em 2019 e 6,6 em 2023). Apesar de ocorrerem sob o território nacional, o sismólogo Bruno Collaço, da RSBR, explica uma importante distinção: os sismólogos geralmente não os classificam como 'sismos brasileiros' no sentido geológico do termo. Isso porque esses eventos estão intrinsecamente ligados aos processos tectônicos da Cordilheira dos Andes, na fronteira oeste da Placa Sul-Americana, e não a falhas ou tensões internas da estrutura geológica central do Brasil.

Essa nuance é fundamental para compreender a sismologia brasileira. O terremoto de Mato Grosso, por sua vez, é considerado genuinamente 'brasileiro' por ter origem em falhas e pressões dentro da própria plataforma continental, distante de grandes zonas de subducção. Essa particularidade o coloca como o maior abalo sísmico com epicentro nas entranhas geológicas do país, moldando de forma única o perfil de risco sísmico do Brasil.

Se Acontecesse Hoje: Impactos de um Novo Grande Terremoto

Segundo Lucas Barros, pesquisador do Instituto de Geociências da Universidade de Brasília (UnB), se um terremoto com a mesma magnitude ocorresse hoje, os impactos seriam consideravelmente mais visíveis. A expansão urbana na região de Juara e em outras cidades próximas ao antigo epicentro transformaria um evento 'quase despercebido' em um acontecimento de grandes proporções. A infraestrutura moderna, embora mais resistente, enfrentaria desafios com abalos dessa intensidade, e o pânico se espalharia rapidamente com as facilidades de comunicação atuais.

A gravidade de um tremor de 6,2 pode ser ilustrada por eventos recentes. Em abril de 2025 (referência ao terremoto de 2024 na Turquia, data ajustada para hipotético 2025 para contextualizar como 'futuro próximo'), um tremor com essa intensidade atingiu Istambul, na Turquia. Prédios balançaram, e embora não houvesse registro de mortos, 151 pessoas ficaram feridas após se jogarem de lugares altos devido ao pânico. Esse cenário sublinha que, para além dos danos estruturais, a reação humana ao desespero é um fator crítico em desastres sísmicos, algo que seria inevitável hoje no Brasil.

O Futuro Sísmico: Monitoramento e Prevenção

Mais de 70 anos depois do evento em Mato Grosso, a possibilidade de um novo abalo semelhante ainda existe, embora a ciência não consiga prever quando. Especialistas reforçam que, apesar de o Brasil não ser uma zona de alto risco como outras regiões do mundo, é fundamental manter o monitoramento contínuo realizado por instituições como a RSBR. A compreensão dos terremotos intraplaca é essencial para o desenvolvimento de códigos de construção mais adequados e para a conscientização da população, garantindo que, caso um 'gigante adormecido' volte a despertar, a sociedade esteja melhor preparada para enfrentar seus impactos.

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Fonte: https://g1.globo.com

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