O cenário político paulista, frequentemente um termômetro das tensões nacionais, ferveu com as declarações recentes do deputado federal Ricardo Salles (Novo-SP). Em uma entrevista no podcast IronTalks, Salles mirou em Eduardo Bolsonaro (PL-SP), acusando-o de praticar “bravatas” nos Estados Unidos, e não poupou o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, que foi alvo de graves alegações de “corrupção” no Ministério dos Transportes. A explosão pública de Salles escancara uma profunda fissura na direita e no campo bolsonarista em São Paulo, especialmente em torno da cobiçada segunda vaga ao Senado na chapa de reeleição do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) em 2026.
O atrito, que já vinha se desenhando em trocas de farpas nas redes sociais, subiu de tom e revelou não apenas uma disputa por espaço eleitoral, mas também divergências ideológicas e de estratégia dentro de um movimento que, por vezes, busca apresentar uma imagem de unidade. As acusações de Salles não são apenas pontuais; elas tocam em nervos sensíveis da articulação política e da percepção pública dos principais atores da direita.
A Disputa Pela Vaga no Senado e o Início do Atrito
O estopim para a mais recente troca de acusações foi a escolha de André do Prado (PL), atual presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), para ocupar a segunda indicação ao Senado na chapa de Tarcísio de Freitas. Essa decisão, que teria contado com o aval de Valdemar Costa Neto e o apoio de Eduardo Bolsonaro – que, curiosamente, ficaria como suplente de Prado –, desagradou a outros aspirantes dentro do partido, incluindo Salles e Mário Frias, ambos cotados para a posição.
A vaga ao Senado é estratégica. Não apenas oferece uma plataforma de projeção nacional, mas também influencia a correlação de forças políticas para as eleições futuras, tanto em nível estadual quanto federal. Para o PL, maior partido do Congresso, garantir um aliado fiel nessa posição reforça sua influência em São Paulo, o maior colégio eleitoral do país. O apoio de Eduardo Bolsonaro à indicação de Prado, um político de perfil mais tradicional e alinhado ao centrão fisiológico, foi visto por Salles como um sinal de “submissão” e uma traição aos princípios que ele prega.
As Graves Acusações de Salles: De Bravatas à Corrupção
As falas de Ricardo Salles foram diretas e contundentes. Em relação a Eduardo Bolsonaro, a crítica foi centrada na postura do filho do ex-presidente, que Salles caracterizou como “bravatas” feitas dos Estados Unidos. “A diferença é que eu não sou burro que nem você, que fica gritando, xingando as pessoas e seu pai preso. Você está fazendo um monte de merda nos Estados Unidos e o pessoal está descontando no seu pai aqui”, disparou Salles, sugerindo que as ações de Eduardo prejudicam a imagem de Jair Bolsonaro, que enfrenta desafios jurídicos no Brasil. Salles enfatizou a necessidade de “sobriedade, técnica e equilíbrio” para enfrentar processos e ganhar, em contraste com o comportamento que ele atribui a Eduardo.
No que diz respeito a Valdemar Costa Neto, as acusações escalaram para um nível ainda mais grave. Salles afirmou categoricamente que “a turma do Valdemar é que roubava no Ministério dos Transportes e no DNIT [Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes]” em gestões em que o presidente do PL teria indicado os responsáveis pela pasta. Essa é uma referência direta ao histórico do PL e de seu líder em governos anteriores, especialmente em momentos de alianças com o Partido dos Trabalhadores, quando o Ministério dos Transportes foi alvo de diversas investigações por irregularidades.
O deputado do Novo ainda insinuou que o atual governador Tarcísio de Freitas, quando ministro da Infraestrutura no governo Bolsonaro, “fez a limpa” na pasta e que o conhecimento dos desvios teria sido um dos motivos para Tarcísio não se filiar ao PL antes de sua candidatura ao governo de São Paulo em 2022. Essas declarações visam não apenas descreditar Valdemar e seus aliados, mas também reforçar a imagem de “limpeza” e retidão em contraposição a práticas políticas tradicionais, que Salles rotula de “centrão fisiológico”.
A Retaliação da Ala Bolsonarista e Aliados
As palavras de Salles não ficaram sem resposta. Eduardo Bolsonaro e seus aliados rapidamente contra-atacaram, expondo a dimensão pessoal e ideológica do racha. Eduardo acusou Salles de “moderação” em relação ao Supremo Tribunal Federal (STF), afirmando que o ex-ministro do Meio Ambiente “colocou o rabinho entre as pernas” em momentos cruciais, uma crítica velada à sua postura vista como menos combativa em comparação com a linha ideológica mais radical do bolsonarismo.
Aliados de Eduardo também se manifestaram. O deputado estadual Gil Diniz (PL-SP), por exemplo, rotulou Salles como “mordomo de Geraldo Alckmin”, uma tentativa de desqualificá-lo e associá-lo a um antigo adversário político de Bolsonaro, o atual vice-presidente da República. Já o deputado federal Mário Frias, outro preterido na disputa pela vaga no Senado, comparou a postura de Salles à de Eduardo, dizendo que Salles “escolheu se esconder” quando respondeu a acusações de compra de madeira ilegal – uma referência à investigação sobre sua conduta no Ministério do Meio Ambiente – enquanto Eduardo teria “aberto mão do cargo de deputado e de uma vaga praticamente certa ao Senado para tentar nos dar meios de ação contra a tirania”, em uma clara tentativa de engrandecer a figura de Eduardo como um mártir da causa bolsonarista.
Salles, por sua vez, descartou responder à “trupe de puxa-sacos do Eduardo” e instou os integrantes do partido a “pararem de desrespeitar a vontade do ex-presidente Jair Bolsonaro e de usar o nome dele em negociatas”. Ele ainda propôs uma solução para o impasse: “Tirem o filhote do Valdemar e coloquem o Ricardo Mello Araújo [vice-prefeito de São Paulo] de candidato”, afirmando que, diante desse arranjo, ele próprio desistiria de disputar o Senado. Essa manobra revela a tentativa de Salles de articular uma alternativa que contemple sua visão para a direita, alinhando-se a uma figura vista como mais puramente bolsonarista.
Implicações para a Unidade da Direita e o Cenário de 2026
Este embate público não é apenas uma briga de egos ou uma disputa por uma vaga eleitoral. Ele expõe fissuras ideológicas e de poder que podem ter implicações significativas para a direita brasileira, especialmente em São Paulo, nas eleições de 2026. A aliança entre o bolsonarismo e o PL, que elegeu Tarcísio de Freitas e formou uma das maiores bancadas do Congresso, mostra sinais de fragilidade interna. A influência de Valdemar Costa Neto, a busca por um perfil mais moderado ou mais combativo, e o papel da família Bolsonaro na definição dos rumos do partido são temas centrais.
Para o governador Tarcísio de Freitas, que busca a reeleição, manter a coesão de sua base de apoio é crucial. Conflitos como este podem desgastar a imagem de um movimento que depende da mobilização e da lealdade de seus eleitores. A maneira como esses desentendimentos forem gerenciados nos próximos meses definirá não apenas a chapa do Senado em São Paulo, mas também a força e a direção da direita brasileira no próximo ciclo eleitoral, com repercussões que podem ir além das fronteiras estaduais, influenciando até mesmo a disputa pela Presidência da República.
Diante de um cenário político em constante efervescência, com alianças sendo testadas e novas configurações se desenhando, o Capital Política continuará acompanhando de perto os desdobramentos deste e de outros capítulos da política nacional. Para se manter atualizado com análises aprofundadas, reportagens contextualizadas e a leitura dos fatos que realmente importam, continue conosco e fortaleça a informação de qualidade.
Fonte: https://oglobo.globo.com