Um racha interno e um significativo mal-estar foram deflagrados na Gaviões da Fiel, uma das maiores e mais influentes torcidas organizadas do Brasil, após o presidente Alexandre Domênico manifestar publicamente apoio a um candidato do Partido Liberal (PL). A postagem em vídeo, divulgada em uma terça-feira de setembro, rompeu com a tradição apartidária da entidade e provocou uma onda de críticas e questionamentos sobre a direção política da torcida, historicamente ligada a pautas progressistas e à oposição a regimes.
A Gaviões da Fiel, fundada em 1969, tem em suas raízes um espírito de resistência e contestação. Nascida em plena ditadura militar brasileira, a entidade surgiu como um movimento de oposição à diretoria do Sport Club Corinthians Paulista da época, que mantinha um alinhamento com o regime ditatorial. Essa gênese, forjada na luta por liberdade e autonomia, conferiu à torcida uma identidade que muitos de seus membros consideram intrinsecamente ligada a valores democráticos e, por vezes, de esquerda ou progressistas, o que torna o apoio a um partido de direita, como o PL, um ponto de atrito profundo.
No centro da polêmica está o endosso de Domênico a Thiago Surfista (PL), atual vice-prefeito de Guarulhos e postulante a deputado federal. O presidente da Gaviões apresentou o candidato como alguém “comprometido com a defesa dos direitos dos torcedores e com as pautas das torcidas organizadas no Congresso Nacional”. Entre as reivindicações destacadas estariam o fim da torcida única, a busca por ingressos mais acessíveis e a garantia de maior liberdade para os torcedores nos estádios, temas caros e legítimos para o universo das organizadas.
Alexandre Domênico defendeu sua posição, afirmando que a construção da campanha e o apoio a Surfista foram “apresentados e discutidos com o Conselho Deliberativo da Gaviões da Fiel”. Ele enfatizou, em nota, que o apoio não estaria vinculado a legendas partidárias, mas sim a “projetos e compromissos que contemplem pautas relevantes para o segmento das torcidas organizadas”, com o objetivo de ampliar a representatividade do torcedor organizado nos espaços de debate e decisão política, defendendo a criação de uma espécie de 'bancada da torcida'.
As raízes de uma identidade apartidária em xeque
A reação interna não tardou a surgir e foi contundente. Chico Malfitani, um dos fundadores da Gaviões da Fiel, expressou seu lamento pela postura do atual presidente, resumindo a situação com a dura observação de que “o Brasil é contraditório. Povo votando em quem vai prejudicá-lo”. As redes sociais se tornaram palco de um intenso debate, com membros e simpatizantes da torcida condenando veementemente o posicionamento.
Comentários como “Sou corintiano e não voto 22” e “Votar em 22 não dá. Não dá pra misturar as coisas. Não precisa ser 13, mas pelo menos se esquerda” inundaram as publicações. A referência aos números de urnas explicitava a forte polarização política que atravessa o país e que agora se manifestava no seio da torcida. Outros questionaram o uso da imagem da entidade: “Ele não deveria usar a entidade Gaviões para expressar seu apoio político, ainda mais para esse partido de torturadores, antidemocrático”, apontou um usuário, ecoando a percepção de muitos corintianos que definiram a atitude como “vergonha” e “preocupante”.
O peso do histórico e a polarização política
Este não é o primeiro embate político explícito envolvendo a Gaviões da Fiel. Em 2018, em um contexto de alta polarização, o então presidente da torcida, Rodrigo Gonzalez Tapia, conhecido como Digão, posicionou-se firmemente contra a candidatura de Jair Bolsonaro (PL) à Presidência, declarando enfaticamente: “Gavião não vota em Bolsonaro”. Na ocasião, Digão instou os membros a repensarem seu apoio a um candidato que “vai contra todas as nossas ideias e joga no lixo o nosso passado de muitas lutas”, demonstrando um claro alinhamento ideológico que parecia consolidado na cúpula da torcida.
A contradição entre a postura histórica da torcida e a ação do atual presidente é um reflexo das tensões que permeiam a sociedade brasileira. A Gaviões sempre se notabilizou por sua capacidade de mobilização não apenas nos estádios, mas também em pautas sociais e políticas, como o combate ao racismo e a defesa da democracia. O PL, por sua vez, tornou-se o principal partido de sustentação do bolsonarismo e de uma agenda política conservadora, frequentemente criticada por setores progressistas.
A 'bancada da torcida' em debate
A argumentação de Alexandre Domênico de que o objetivo é criar uma 'bancada da torcida' para defender os interesses dos organizados no Congresso Nacional levanta um importante debate. Embora a busca por representatividade seja legítima, a escolha de um partido com uma agenda ideológica tão definida como o PL gera desconfiança. É possível desvincular o apoio a um candidato das diretrizes partidárias de sua legenda? A Gaviões tem afirmado que respeita a pluralidade de ideias de seus associados, inclusive do presidente, e que ele participará também da divulgação e do apoio a um candidato de esquerda. Contudo, a materialização desse segundo apoio não parece ter minimizado o impacto do primeiro, tamanha a força simbólica do alinhamento inicial.
O episódio abre feridas na identidade política da Gaviões da Fiel e desafia a própria noção de apartidarismo, mostrando como as pautas sociais e os interesses dos torcedores se entrelaçam, de forma complexa e, por vezes, conflituosa, com o cenário político partidário do país. O desafio para a Gaviões será navegar por essa turbulência sem perder sua essência e sua capacidade de mobilização, mantendo a credibilidade perante seus membros e a sociedade.
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Fonte: https://www.metropoles.com