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A virada de Brizola: quando a elite precisou “engolir o sapo barbudo” em 1989

Em um dos momentos mais emblemáticos da jovem democracia brasileira, a eleição presidencial de 1989, a primeira após mais de duas décadas de ditadura militar, reservou uma reviravolta digna de análise profunda. Leonel Brizola, então líder do PDT e um dos grandes nomes da esquerda nacional, viu a chance de disputar o segundo turno escapar […]

Reprodução/Twitter

Em um dos momentos mais emblemáticos da jovem democracia brasileira, a eleição presidencial de 1989, a primeira após mais de duas décadas de ditadura militar, reservou uma reviravolta digna de análise profunda. Leonel Brizola, então líder do PDT e um dos grandes nomes da esquerda nacional, viu a chance de disputar o segundo turno escapar por uma margem mínima, inferior a 1% dos votos. Derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, na corrida para enfrentar Fernando Collor de Mello, o ex-governador do Rio de Janeiro se viu diante de um dilema que culminaria em uma decisão histórica, cravada pela frase: "A política é a arte de engolir sapo. Não seria fascinante fazer agora a elite brasileira engolir o Lula, este sapo barbudo?"

O Contexto da Redemocratização e a Eleição de 1989

A eleição de 1989 não era apenas mais uma disputa presidencial; era o reencontro do Brasil com o voto direto para o cargo máximo do Executivo, um marco da redemocratização iniciada após a campanha das Diretas Já. O país vivia uma mistura de euforia e incerteza. De um lado, a esperança de um novo tempo para uma nação recém-saída de um regime autoritário; de outro, a fragilidade econômica, a hiperinflação galopante e a busca por um líder capaz de guiar o país rumo à estabilidade. O cenário político era fragmentado, com diversas candidaturas que buscavam capturar o anseio popular por mudança e representação democrática.

Nesse caldeirão de expectativas, despontaram nomes de diferentes espectros ideológicos. Fernando Collor de Mello, então governador de Alagoas, emergiu como um fenômeno de mídia, surfando na onda da "caça aos marajás" e prometendo renovação e modernidade. Pelo campo da esquerda, Leonel Brizola, com sua história de resistência à ditadura e seu discurso nacionalista e populista, disputava a preferência com Lula, líder sindical do ABC paulista que ganhava projeção nacional com o Partido dos Trabalhadores. A polarização entre o "novo" de Collor e a representatividade popular da esquerda tornava a disputa particularmente tensa e imprevisível.

A Missão Secreta e o Dilema de Brizola

Após a apuração do primeiro turno, a frustração de Brizola era palpável. A diferença minúscula de 0,63% dos votos totais – pouco mais de 470 mil eleitores – o separou de Lula e, consequentemente, da vaga no segundo turno. A amargura inicial, no entanto, logo cedeu lugar a uma manobra política audaciosa. Brizola, convencido de que Lula seria um adversário fácil para Collor, que já contava com o apoio irrestrito da direita e do establishment econômico, concebeu um plano secreto para alterar os rumos da eleição.

Em seu apartamento em Copacabana, com ampla vista para o mar, o líder pedetista convocou o deputado Miro Teixeira e lhe confiou uma missão de alto sigilo. Miro deveria viajar de imediato a São Paulo e sondar Mário Covas, o candidato do PSDB que havia terminado o primeiro turno em quarto lugar. A proposta era inusitada: Covas aceitaria disputar o segundo turno contra Collor? Em caso afirmativo, Brizola se encarregaria de persuadir Lula a abdicar de seu direito, cedendo a vaga ao tucano na esperança de um embate mais equilibrado e com maiores chances de vitória contra o fenômeno alagoano.

A urgência da situação pedia agilidade. Miro Teixeira cumpriu a missão, mas Covas, após pedir um tempo para pensar, consultar suas bases e refletir profundamente sobre a proposta, declinou do convite. Sua justificativa foi clara e fundamentada nos princípios democráticos: o povo havia escolhido Lula, e não ele, para enfrentar Collor. Tal arranjo, segundo Covas, não seria legítimo e estaria fadado ao insucesso, um reconhecimento da vontade popular que, para além das estratégias de bastidores, já havia se manifestado nas urnas. O plano de Brizola, assim, ruiu antes mesmo de ser publicizado.

A Virada no Riocentro: Engolindo o "Sapo Barbudo"

Enquanto a articulação secreta falhava, o clima no PDT fervia. Um congresso extraordinário fora convocado para o domingo, 26 de novembro, onze dias após o primeiro turno, no Riocentro, com a presença de cerca de 2.600 delegados e militantes. A expectativa era enorme: Brizola apoiaria Lula? A decisão era crucial, não apenas para o partido, mas para a própria união da esquerda frente à ameaça de Collor e o futuro da redemocratização.

Na saída de seu apartamento, ainda imerso em dúvidas sobre o caminho a seguir, Brizola teve um encontro fortuito que se tornaria lendário. Uma vizinha, ao cumprimentá-lo, comentou com uma certa resignação: "É, governador, vamos ter de engolir aquele sapo barbudo", referindo-se, sem meias palavras, a Lula. Aquela frase, dita com a simplicidade do povo, pareceu ser o estopim para a decisão final do velho caudilho, uma epifania que transformou a queixa em estratégia.

Ao chegar ao Riocentro, onde a maioria dos militantes já sinalizava o desejo de apoiar Lula, Brizola se rendeu à realidade política e ao clamor de suas bases. Com sua retórica vibrante e sempre surpreendente, ele reinterpretou a expressão da vizinha, transformando a amargura inicial em um chamamento estratégico. "A política é a arte de engolir sapo", declarou, para em seguida lançar a questão que incendiaria o auditório: "Não seria fascinante fazer agora a elite brasileira engolir o Lula, este sapo barbudo?". O delírio da plateia foi instantâneo, com aplausos ensurdecedores. Aquele momento não apenas selou o apoio do PDT a Lula, mas também revelou uma profunda compreensão de Brizola sobre a maturidade do eleitorado, que, como ele próprio concluiu, "não espera a palavra do líder para decidir em quem votar", especialmente em um segundo turno.

Legado e Impacto na Política Brasileira

A decisão de Brizola de apoiar Lula, embora tardia e após um jogo de xadrez político que visava uma alternativa, foi um marco importante para a construção de uma frente de esquerda no cenário pós-ditadura. Apesar de Collor ter vencido aquela eleição, o gesto de Brizola cimentou uma certa unidade e estabeleceu as bases para futuras articulações e debates ideológicos, mostrando que, diante de um adversário comum, as diferenças poderiam ser superadas em nome de um objetivo maior. A união, mesmo que relutante, entre PT e PDT naquele momento é um precursor de alianças que viriam a se formar anos depois.

Mais do que a vitória ou derrota eleitoral imediata, o episódio sublinhou a complexidade da política brasileira e a força da vontade popular. A percepção de Brizola de que o "povo está cada vez menos bobo" e que o eleitor toma suas próprias decisões, especialmente em segundo turno, permanece relevante e ecoa nas análises políticas contemporâneas. Aquele 1989 foi um laboratório de democracia, onde as lideranças aprenderam, por vezes a duras penas, a respeitar a autonomia do voto e a adaptar suas estratégias à dinâmica de uma sociedade em constante transformação. O "sapo barbudo", então alvo da elite e de parte da esquerda, viria a se tornar, anos depois, um dos presidentes mais importantes da história contemporânea do Brasil, em uma trajetória que certamente foi influenciada por aquele primeiro e emblemático embate presidencial e a consolidação de seu nome como uma força a ser engolida.

Momentos como a virada de Brizola em 1989 são essenciais para compreender as nuances da política brasileira e seus desdobramentos atuais. Para continuar acompanhando análises aprofundadas, reportagens exclusivas e a cobertura completa dos fatos que moldam o nosso país, acesse o Capital Política. Nosso compromisso é com a informação relevante, atual e contextualizada, oferecendo uma leitura jornalística que vai além do noticiário superficial, para que você esteja sempre bem informado sobre os temas que realmente importam.

Fonte: https://www.metropoles.com

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