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PF desvenda ‘caixa paralelo’ milionário de Daniel Vorcaro com gastos de luxo e suposta lavagem de dinheiro

O banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, em dezembro de 2019 — Foto: Ana Paula Paiva/Valor

Uma complexa teia de movimentações financeiras à margem dos registros oficiais está sendo desvendada pela Polícia Federal (PF), que aponta o banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, como o centro de um elaborado 'caixa paralelo'. Relatórios de inteligência revelam que esse esquema movimentou impressionantes R$ 114,6 milhões em despesas de luxo, incluindo aviões particulares, imóveis de alto padrão e galerias de arte, em um período de apenas cinco meses de 2025, conforme os documentos investigados.

As informações, oriundas de documentos de contabilidade enviados diretamente a Vorcaro, teriam sido operadas por seu cunhado, Fabiano Zettel, e por Ana Claudia de Paiva, ambos descritos pela PF como 'operadores financeiros' do banqueiro. A magnitude dos valores e a sofisticação da estrutura por trás desses repasses sugerem uma rede destinada não apenas a custear um estilo de vida opulento, mas também, segundo as suspeitas da PF, a camuflar operações financeiras ilícitas e até a pagar favores políticos.

A Figura de 'Sicário' e a Trama da Milícia Privada

No coração desse 'caixa paralelo' emerge uma figura enigmática: 'Sicário', apelido dado por Vorcaro a Luiz Phillipi Machado de Morão. Morão é descrito como uma espécie de 'faz tudo' do banqueiro, e seu papel nas operações era crucial. As planilhas revelam repasses fixos de R$ 1 milhão por mês a 'Sicário', evidenciando a dependência e a confiança que Vorcaro depositava nele para a execução de certas tarefas.

As investigações da PF aprofundam a natureza da relação, apontando que Morão integrava o grupo 'A Turma'. Este coletivo é suspeito de atuar como uma milícia privada a serviço de Vorcaro, encarregada de monitorar e intimidar desafetos do banqueiro. As comunicações interceptadas reforçam essa dinâmica: Vorcaro instruía os pagamentos a Morão com ordens diretas como 'faz 1 mm Sicário' e enfatizava que, quando se tratava dele, 'não podia deixar falhar'. Em um diálogo que ilustra o peso dessa relação, Zettel chegou a se queixar de que 'Sicário está mais chato', mas mesmo assim Vorcaro ordenava que se continuasse a remunerar seu 'longa manus', um termo que designa alguém que age como uma extensão da vontade de outra pessoa, sem a necessidade de sua presença física.

A urgência e a prioridade dos pagamentos a 'Sicário' são evidenciadas por uma instrução direta de Vorcaro ao cunhado: 'Colocar sicário na lista 1 mm (milhão) todo dia 8'. Isso sugere a importância estratégica de Morão na manutenção das operações ou na proteção dos interesses do banqueiro, indo muito além de um simples 'faz tudo' e desenhando o contorno de uma estrutura de coerção e poder paralelos.

De Obras de Arte a Jatinhos: As Pistas da Lavagem de Dinheiro

Além dos vultosos repasses a 'Sicário', as planilhas do 'caixa paralelo' listam despesas que somam R$ 29,8 milhões em pagamentos a duas galerias de arte localizadas em São Paulo, e R$ 11,8 milhões em 'despesas de aeronaves'. Esses valores chamam a atenção da Polícia Federal, que investiga se Daniel Vorcaro utilizava a compra e venda de obras de arte como uma forma sofisticada de lavagem de dinheiro, transformando recursos de origem duvidosa em bens com aparência legalizada.

A investigação também mira as despesas com viagens em jatinhos particulares. A suspeita é de que esses voos não serviam apenas a propósitos legítimos de negócios, mas poderiam ser empregados para pagar favores ou realizar encontros sigilosos com políticos, configurando um potencial esquema de tráfico de influência ou corrupção. Os documentos de contabilidade analisados abrangem despesas dos meses de março, abril, junho, julho e agosto de 2025, um período específico sob o escrutínio das autoridades.

Super Empreendimentos: A Engrenagem Financeira do Esquema

A PF identificou a empresa Super Empreendimentos SA como uma peça-chave na articulação dessa teia de fundos ilícitos. Com Fabiano Zettel e Ana Cláudia de Paiva em sua diretoria, a empresa é apontada como o veículo por meio do qual parte dos repasses do 'caixa paralelo' era realizada. Mais do que isso, a Super Empreendimentos seria um elo central na estrutura de desvio de dinheiro oriundo das alegadas fraudes financeiras praticadas pelo Banco Master.

Através da Super, o clã Vorcaro realizava investimentos em imóveis de luxo por todo o Brasil. Um desses empreendimentos de destaque é uma mansão avaliada em R$ 36 milhões, localizada no Lago Sul, bairro nobre de Brasília. Este imóvel ganhou notoriedade por ser o palco de encontros de Vorcaro com diversas autoridades dos poderes Legislativo e Judiciário, levantando sérias questões sobre a natureza dessas reuniões e o potencial uso da propriedade para fins de lobby ou influência indevida. A PF, em seus relatórios, pontua que 'é possível comprovar que uma das empresas utilizadas pelo grupo de Daniel Vorcaro para repassar valores a Sicário era a Super Empreendimentos e Participações S.A', reforçando a centralidade da companhia no esquema.

Repercussões e o Cenário do 'Caso Master'

As revelações da Polícia Federal já resultaram em significativas repercussões legais. Daniel Vorcaro e Fabiano Zettel foram presos preventivamente por ordem do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que atua como relator do 'Caso Master' na Corte. Luiz Phillipi Machado de Morão, o 'Sicário', também foi alvo de um mandado de prisão preventiva, mas infelizmente veio a óbito por ferimentos decorrentes de uma tentativa de suicídio ocorrida na carceragem da PF, em Minas Gerais. Ana Cláudia de Paiva, por sua vez, foi alvo de um mandado de busca e apreensão, indicando que a investigação continua a mapear todos os envolvidos.

A investigação do 'caixa paralelo' de Daniel Vorcaro é mais um capítulo no que se convencionou chamar de 'Caso Master', um complexo processo que apura uma série de supostas fraudes financeiras envolvendo o Banco Master. A profundidade das descobertas da PF, que inclui a suspeita de lavagem de dinheiro, uso de milícia privada e tráfico de influência em altos escalões, sublinha a gravidade das acusações e a importância de se apurar rigorosamente esses fatos para a integridade do sistema financeiro e político do país. Procurados por meio de suas defesas, os envolvidos não se pronunciaram até o momento.

Para continuar acompanhando os desdobramentos desta e de outras investigações cruciais para o cenário político e econômico brasileiro, acesse o Capital Política. Nosso portal está comprometido em trazer informação aprofundada, contextualizada e relevante, mantendo você sempre bem informado sobre os temas que realmente importam para o país.

Fonte: https://oglobo.globo.com

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