Com a reeleição de Otaviano Pivetta (Republicanos) ao governo de Mato Grosso, consolidada com 60,77% dos votos válidos, conforme o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o estado se prepara para mais quatro anos sob sua liderança. No entanto, o novo mandato não virá sem obstáculos significativos. Os maiores desafios, ecoando as preocupações da população, concentram-se em áreas críticas como saúde, violência e infraestrutura, conforme apontado por uma recente pesquisa Quaest.
A trajetória política de Pivetta, que o levou a assumir o governo após a renúncia de Mauro Mendes – de quem foi vice por dois mandatos –, o posiciona de forma singular. Empresário e agropecuarista, com passagens pela Assembleia Legislativa e pela prefeitura de Lucas do Rio Verde, esta eleição marcou sua primeira disputa como candidato principal ao cargo de governador. Sua experiência no executivo, agora, será posta à prova diante de demandas que exigem soluções complexas e imediatas para o bem-estar e o desenvolvimento mato-grossense.
A Saúde como Prioridade Inadiável
Na área da saúde, o maior gargalo reside na desigualdade do acesso a serviços especializados. A concentração de leitos e profissionais em poucas cidades-polo, como a macrorregião Centro-Norte que detém cerca de 40% dos leitos estaduais, obriga milhares de mato-grossenses do interior a longas e custosas viagens em busca de atendimento. Essa realidade é especialmente cruel para gestantes de municípios pequenos, que precisam se deslocar para acompanhamento obstétrico e partos, expondo-se a riscos desnecessários.
As filas intermináveis para consultas, exames e cirurgias em especialidades como ortopedia, oncologia, cardiologia e neurocirurgia são um reflexo direto dessa centralização e das falhas no sistema de regulação, que deveria organizar o encaminhamento de pacientes e a oferta de vagas. Esse cenário não apenas retarda tratamentos cruciais, mas também sobrecarrega os hospitais de referência na capital e em polos regionais, gerando um efeito dominó de pressão sobre todo o sistema. O próximo mandato tem o desafio de ampliar a oferta de especialistas e, sobretudo, descentralizar os serviços para que o CEP do paciente não seja um fator determinante para a qualidade e rapidez de seu tratamento.
Combate à Violência: Um Front Duplo e Urgente
A Luta Contra a Violência de Gênero
A violência contra as mulheres desponta como um dos mais graves problemas da segurança pública em Mato Grosso. Dados recentes do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), apontam que o estado registrou uma das maiores taxas de feminicídio do Brasil, com 54 vítimas e uma taxa de 2,7 para cada 100 mil mulheres, ficando atrás apenas do Acre e de Rondônia. Mais alarmante é o fato de que sete dessas mulheres tinham medida protetiva de urgência ativa no momento de suas mortes, evidenciando falhas críticas no acompanhamento e na efetividade das proteções concedidas.
O Observatório Caliandra, do Ministério Público de Mato Grosso (MPMT), registrou 39 feminicídios de janeiro a setembro do ano corrente, reforçando a urgência da questão. A expansão dos serviços de proteção é vital, especialmente no interior. Ferramentas como o Botão do Pânico, presente no aplicativo SOS Mulher MT, ainda estão restritas a poucas cidades como Cuiabá, Várzea Grande, Cáceres e Rondonópolis. É crucial que o governo amplie o alcance dessas iniciativas e fortaleça a Patrulha Maria da Penha em todo o território, garantindo que nenhuma mulher seja privada de assistência por sua localização geográfica.
O Avanço das Facções Criminosas e seus Desafios Complexos
Além da violência de gênero, o avanço das facções criminosas representa uma ameaça multifacetada. A atuação desses grupos transcende o tráfico de drogas, penetrando na economia através da lavagem de dinheiro, influenciando eleições locais e explorando atividades ilegais como o garimpo. A presença de facções em territórios sensíveis, como a Terra Indígena Sararé, conforme exposto em documentários como “Territórios — Sob o Domínio do Crime” do Globoplay, ilustra a dimensão do problema e a complexidade de seu enfrentamento.
O desafio para a gestão de Pivetta não se limita à repressão dos crimes, mas à desarticulação das redes financeiras e de apoio que sustentam essas organizações. Isso exige inteligência estratégica, cooperação interinstitucional e políticas públicas que ataquem as causas sociais que alimentam o recrutamento e a expansão desses grupos, garantindo segurança e soberania sobre o território e suas riquezas.
Infraestrutura: Mobilidade e Desenvolvimento Regional
Na Grande Cuiabá, a entrega do BRT (Bus Rapid Transit) é uma das cobranças mais prementes. O sistema de transporte, que substituiu o projeto do VLT e está em implantação em Cuiabá e Várzea Grande, ainda não tem data definida para iniciar sua operação plena. Embora o governo preveja a conclusão do corredor entre o Aeroporto Marechal Rondon e o Comando Geral da Polícia Militar até dezembro de 2026, a frustração com os constantes atrasos e a incerteza sobre a operação efetiva geram impactos significativos na mobilidade urbana e na qualidade de vida dos moradores da capital e entorno.
No interior, as demandas se concentram na entrega e manutenção de estradas e pontes. A Pesquisa CNT de Rodovias de 2025 identificou 95 pontos críticos nos 7.156 quilômetros de rodovias avaliadas em Mato Grosso, uma média alarmante de 1,3 ponto crítico a cada 100 quilômetros. Essas deficiências não apenas comprometem a segurança de motoristas, mas também encarecem o transporte de cargas, impactando diretamente o agronegócio, espinha dorsal da economia mato-grossense, e o escoamento da produção. A pavimentação e a recuperação de vias são essenciais para a integração regional e o desenvolvimento econômico do estado.
Os próximos quatro anos prometem ser de intenso trabalho e desafios complexos para Otaviano Pivetta. A capacidade de articular soluções eficazes para a saúde pública, combater as diversas formas de violência e destravar a infraestrutura será determinante para o futuro de Mato Grosso e para a consolidação de seu legado político. A sociedade mato-grossense, que concedeu a ele mais um mandato, espera respostas concretas e um governo focado em promover o bem-estar e o desenvolvimento equitativo para todos.
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Fonte: https://g1.globo.com