O mundo do futebol e da cultura brasileira foi surpreendido nesta semana com uma publicação inusitada do renomado jornal norte-americano The New York Times. Em um gesto de reparação histórica, a tradicional publicação trouxe à tona o obituário de Manoel Francisco dos Santos, eternamente conhecido como Mané Garrincha, o 'Anjo das Pernas Tortas', ícone máximo do futebol brasileiro ao lado de Pelé. O detalhe que chamou a atenção, e que carrega grande peso simbólico, é que a homenagem chega com um atraso de 43 anos, uma vez que Garrincha faleceu em 20 de janeiro de 1983.
A iniciativa do NYT faz parte de uma seção especial do periódico, batizada de 'Overlooked No More' (em tradução livre, 'Não Mais Esquecidos'). Lançada em 2018, essa série dedica-se a preencher uma lacuna editorial, publicando obituários de personalidades notáveis cujas mortes, por diversas razões – seja por preconceito de gênero, raça, localização geográfica ou meramente por um descuido da equipe editorial da época –, não foram devidamente registradas com a deferência que mereciam. Garrincha, com sua história de brilho incomparável nos gramados e uma vida pessoal marcada por dramas, é agora elevado a esse panteão de figuras mundiais que o jornal entende ter negligenciado em seu tempo.
O legado inesquecível de um gênio das pernas tortas
Mané Garrincha não foi apenas um jogador de futebol; ele foi um fenômeno cultural, um artista da bola que encantou gerações com seus dribles desconcertantes e sua alegria contagiante em campo. Nascido com um desvio na coluna e as pernas arqueadas (uma voltada para a direita, outra para a esquerda), Garrincha desafiou todas as expectativas físicas para se tornar um dos maiores pontas-direitas da história. Sua genialidade foi fundamental nas conquistas das Copas do Mundo de 1958 e 1962, esta última onde ele, na ausência de Pelé lesionado, carregou a Seleção Brasileira ao bicampeonato, sendo o artilheiro e o melhor jogador do torneio.
Pela Seleção Brasileira, Mané Garrincha construiu uma estatística quase inacreditável: em 60 jogos, venceu 52, empatou sete e sofreu apenas uma derrota. Este único revés ocorreu justamente em sua última partida pela equipe, contra a Hungria, na Copa de 1966, quando já apresentava sérios problemas físicos. Seu impacto no Botafogo, onde é um ídolo incontestável, também é um capítulo à parte, com atuações memoráveis que o alçaram à imortalidade para a torcida alvinegra e para qualquer amante do futebol.
A iniciativa 'Overlooked No More' e a correção histórica
A seção 'Overlooked No More' transcende a mera publicação de obituários. Ela representa um importante movimento de revisão histórica e de reconhecimento póstumo, corrigindo omissões que, em retrospecto, parecem inconcebíveis. Além de Garrincha, outras personalidades globais de imensa relevância já foram agraciadas com esse reconhecimento tardio. Entre elas, destacam-se Katharine McCormick, uma das principais financiadoras das pesquisas que levaram à criação da primeira pílula anticoncepcional, e Polina Gelman, uma corajosa aviadora soviética que atuou na Segunda Guerra Mundial. A inclusão de Garrincha nessa lista reforça a visão do jornal de que a magnitude de sua contribuição para o esporte e para a cultura merecia um espaço que, à época de seu falecimento, não lhe foi concedido pelo veículo.
O título do obituário dedicado a Garrincha, 'Não mais esquecido: Garrincha, o brilhante e ferido herói brasileiro da Copa do Mundo', sintetiza a dualidade de sua existência. Ao mesmo tempo em que destaca sua genialidade inquestionável, não se furta a abordar a face trágica de sua vida, que ofuscou parte de seu legado nos anos finais. Essa abordagem humana e contextualizada é um pilar da proposta do 'Overlooked No More', que busca apresentar a integralidade das personalidades, com suas luzes e sombras.
Entre a glória e a tragédia: a vida de Garrincha
A trajetória de Mané Garrincha é um roteiro complexo que mistura o apogeu da glória esportiva com as profundezas do drama pessoal. Sua morte, aos 49 anos, em decorrência de complicações do alcoolismo, chocou o Brasil e o mundo, tornando-se um símbolo da dificuldade de muitos atletas em lidar com o fim da carreira, a fama avassaladora e os demônios pessoais. O obituário do NYT não ignora essa parte de sua história, citando: 'Ele ajudou a levar o Brasil a dois campeonatos ao lado de Pelé, mas seu brilho em campo foi ofuscado por uma vida pessoal trágica'.
A vida de Garrincha fora dos gramados foi marcada por relacionamentos turbulentos, problemas financeiros e uma crescente dependência do álcool, que minou sua saúde e o privou de um envelhecimento tranquilo e digno. Sua história é um doloroso lembrete das pressões e desafios enfrentados por ídolos populares, que muitas vezes ascendem de origens humildes sem a estrutura e o apoio necessários para navegar no complexo universo da fama e da fortuna. O reconhecimento tardio do New York Times serve, portanto, não apenas para celebrar o atleta, mas também para revisitar e refletir sobre a complexidade do homem por trás do gênio.
Por que um obituário 43 anos depois ainda importa?
A publicação do obituário de Garrincha, quatro décadas após sua morte, transcende a mera curiosidade ou a correção de um erro editorial. Ela ressoa profundamente na cultura brasileira e global, sublinhando a importância de se manter viva a memória de figuras que moldaram a identidade de um povo ou a história de um esporte. Para o Brasil, Garrincha é mais do que um jogador; é um pedaço da alma nacional, um herói popular cujo talento puro e espontâneo personificava a alegria e a malemolência do futebol arte.
Esse reconhecimento tardio de um veículo com a autoridade do New York Times reafirma o status de Mané Garrincha como uma lenda universal, cujo impacto vai além das estatísticas e dos troféus. É um convite à reflexão sobre como a história é contada, quem é lembrado e quem é esquecido, e sobre o papel do jornalismo em revisitar e recontextualizar narrativas passadas. Ao trazer Garrincha para a luz novamente, o jornal não apenas presta uma homenagem, mas também contribui para que as novas gerações, e mesmo aquelas que o viram jogar, possam apreciar a integralidade de sua jornada, com todo o seu esplendor e suas cicatrizes.
O episódio do obituário tardio de Garrincha pelo New York Times nos lembra que a história está em constante construção e reavaliação. Para continuar acompanhando análises aprofundadas sobre os grandes nomes do esporte, da política e da cultura, e se manter sempre atualizado com informações relevantes e contextualizadas, siga acompanhando o Capital Política. Nosso compromisso é trazer a você um jornalismo que investiga, explica e convida à reflexão sobre os fatos que realmente importam.
Fonte: https://www.metropoles.com