O presidente Luiz Inácio Lula da Silva parte neste domingo (13) para Évian-les-Bains, na França, para sua décima participação na Cúpula do G7, o fórum que reúne as sete maiores economias industrializadas do mundo: Canadá, Estados Unidos, Reino Unido, França, Itália, Alemanha e Japão, com a União Europeia também como membro institucional. A presença do líder brasileiro, que já é figura conhecida nestes encontros, desta vez carrega o peso de uma agenda bilateral complexa e desafiadora, marcada por recentes fricções comerciais significativas com dois dos principais blocos econômicos do planeta.
A cúpula, que ocorre de 15 a 17 de junho sob a presidência francesa, serve como palco para discussões sobre governança global e desenvolvimento, temas caros à diplomacia brasileira. Contudo, o foco da delegação nacional, e a grande expectativa nos bastidores, reside na possibilidade de encontros diretos para desatar nós comerciais urgentes, especialmente com os Estados Unidos e a União Europeia, que recentemente impuseram barreiras a produtos e serviços brasileiros.
O atrito comercial com os Estados Unidos e a questão do Pix
A relação Brasil-Estados Unidos, que teve um aparente arrefecimento após a troca de governo em Washington, enfrenta um novo período de tensão. A apenas duas semanas da Cúpula do G7, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) indicou a imposição de uma tarifa de 25% sobre parte das importações brasileiras. Essa medida é fruto de uma investigação iniciada há um ano pelo governo norte-americano, sob a alegação de “práticas desleais” de comércio por parte do Brasil.
Um dos pontos mais polêmicos do relatório do USTR é a acusação de que o sistema de pagamentos instantâneos brasileiro, o Pix, estaria prejudicando “injustamente” empresas estadunidenses que atuam no setor de pagamentos eletrônicos, como as operadoras de cartões de crédito MasterCard e Visa, além do WhatsApp Pay. A argumentação dos EUA aponta para uma suposta vantagem competitiva desleal conferida ao Pix pelo governo brasileiro, impactando negativamente a atuação dessas gigantes no mercado nacional. Tal leitura, contudo, é contestada por especialistas brasileiros, que veem no Pix uma inovação disruptiva e de inclusão financeira.
Ainda não há confirmação sobre um encontro bilateral entre Lula e o presidente dos EUA, Donald Trump, embora ambos tenham se reunido em Washington no início de maio. Na ocasião, segundo relatos de Lula, houve um direcionamento para que as equipes dos dois países buscassem uma solução para o impasse das tarifas. No entanto, o embaixador Philip Fox-Drummond Gough, secretário de Assuntos Econômicos e Financeiros do Ministério das Relações Exteriores (MRE), afirmou que a definição de um encontro específico “não está definida”, mas que os contatos “seguem de forma intensa”. Este seria o primeiro contato entre os líderes após a recente designação formal das facções criminosas brasileiras Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO) pelos EUA. O governo brasileiro vinha se esforçando para evitar essa classificação, temendo que ela pudesse justificar ações militares ou sanções econômicas severas.
O veto da União Europeia à carne brasileira e suas implicações
Outro ponto de forte preocupação na agenda de Lula é o recente veto da União Europeia à importação de carnes, tripas, peixe e mel produzidos no Brasil, que entrará em vigor a partir de 3 de setembro. A decisão, oficializada em 5 de junho no Diário Oficial do bloco, surpreendeu o governo brasileiro, especialmente porque ocorre pouco após a entrada em vigor provisória do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia. A exclusão do Brasil da lista de países autorizados a exportar esses produtos para o mercado europeu representa um golpe significativo para o agronegócio nacional, um dos pilares da economia brasileira e um grande gerador de empregos.
A União Europeia é um dos maiores mercados para a carne brasileira, e a proibição levanta questões sobre os padrões sanitários e ambientais exigidos pelo bloco, bem como sobre o futuro das relações comerciais e do próprio acordo Mercosul-UE. O embaixador Philip Fox-Drummond Gough expressou a “surpresa” brasileira com a forma como a medida foi imposta, indicando que o Brasil vê “algumas medidas da União Europeia que nos causam alguma preocupação”. A expectativa é de que, havendo um encontro com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen – que também não está confirmado –, o tom da discussão será de buscar uma solução para “resolver as questões” que afligem os exportadores brasileiros.
Outras pautas e a busca por novos mercados
Em meio a esses desafios, a agenda de Lula no G7 também inclui compromissos com potenciais parceiros estratégicos. Um encontro já confirmado é com a primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, que assumiu o cargo em outubro de 2025. Este será o primeiro contato oficial entre os dois líderes, e há uma expectativa considerável sobre a abertura de negociações para um futuro acordo comercial entre o Japão e o Mercosul. Tal acordo poderia diversificar as rotas de exportação do Brasil e reduzir a dependência de mercados tradicionais, oferecendo uma válvula de escape para as tensões atuais.
Além do Brasil, outros líderes de países importantes como Índia, Quênia, Coreia do Sul e Egito também foram convidados para a Cúpula do G7, reforçando a intenção do bloco de ampliar o diálogo sobre questões globais, como clima, saúde e segurança alimentar. Para Lula, a participação reiterada no G7 sublinha a relevância do Brasil no cenário internacional, não apenas como uma grande economia emergente, mas como um ator diplomático que busca soluções para desafios complexos. Sua atuação, portanto, vai além da defesa de interesses nacionais, buscando um reposicionamento do Brasil na construção de uma ordem global mais justa e multipolar.
A agenda do presidente brasileiro na França, portanto, é um delicado balanço entre a defesa intransigente dos interesses comerciais do país e a busca por uma maior projeção diplomática em um mundo cada vez mais interconectado e desafiador. As decisões e os diálogos travados nos bastidores do G7 terão repercussões diretas na economia brasileira e no seu papel geopolítico. Para acompanhar de perto todos os desdobramentos dessa viagem e a análise aprofundada dos impactos das decisões globais no cenário nacional, continue conectado ao Capital Política, seu portal de informação relevante e contextualizada, que oferece uma cobertura completa e diversificada dos temas que realmente importam.