O Tribunal do Júri de Carlos Alberto Gomes Bezerra, conhecido como Carlinhos Bezerra, foi confirmado para esta sexta-feira (31), às 9h, no Fórum de Cuiabá. A decisão, proferida pela juíza Mônica Catarina Perri Siqueira, da 1ª Vara Criminal da capital mato-grossense, solidifica o andamento do processo que o acusa de assassinar a ex-companheira Thays Machado e o namorado dela, Willian César Moreno, em janeiro de 2023. A manutenção do júri ocorre após a Justiça negar, mais uma vez, os pedidos da defesa para adiar a sessão, refletindo a intenção de garantir a celeridade processual diante de um caso de grande repercussão e apelo público.
Carlinhos Bezerra, filho do ex-deputado federal Carlos Bezerra, encontra-se detido no Centro de Ressocialização Industrial Ahmenon Lemos Dantas e permanecerá sob prisão preventiva até a conclusão do julgamento. A persistência da custódia demonstra a gravidade atribuída aos fatos e a necessidade de assegurar a ordem pública e a instrução criminal. O caso, que chocou a sociedade mato-grossense pela brutalidade e pelas circunstâncias, mobiliza a atenção para os desdobramentos de um crime com fortes contornos de feminicídio e violência de gênero, temas de debate contínuo no cenário nacional.
As Manobras da Defesa e a Firmeza da Justiça
Desde a sua remarcação, após uma suspensão inicial, o processo tem sido marcado por sucessivas tentativas da defesa de adiamento e questionamentos sobre sua condução. O júri foi interrompido anteriormente em decorrência de alegações de que os advogados não teriam tido acesso integral a todos os documentos do processo, solicitando mais tempo para análise do vasto material probatório. Mesmo após a nova data ser estabelecida, os advogados do réu protocolaram um novo pedido de adiamento na segunda-feira (27), prontamente negado pela Justiça, que considerou os argumentos insuficientes para uma nova interrupção.
Em uma frente paralela, a juíza Mônica Catarina Perri Siqueira também recusou um pedido da própria defesa para que ela fosse afastada do caso. A magistrada enfatizou não haver qualquer motivo que pudesse colocar em dúvida sua imparcialidade ou a lisura de sua atuação, reiterando o compromisso com a condução justa e imparcial do processo. Contudo, em respeito à legislação, o pedido foi encaminhado ao Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), sem que isso implicasse em interrupção do trâmite processual. Da mesma forma, a Defensoria Pública teve seu pedido para deixar a atuação negado, sendo o defensor público Marcus Vinícius Esbalqueiro intimado para intervir somente na ausência ou abandono dos advogados particulares do réu, garantindo assim a plena defesa e evitando protelações por ausência legal.
O Contexto do Duplo Homicídio e as Qualificadoras
Carlos Alberto Gomes Bezerra é réu confesso pelos assassinatos de Thays Machado e Willian César Moreno. Segundo a denúncia robusta do Ministério Público de Mato Grosso (MPMT), Thays foi vítima de feminicídio, crime motivado por questões torpes relacionadas ao término do relacionamento e ao inconformismo do agressor com a nova vida da ex-companheira. Para Willian, o MPMT aponta qualificadoras como motivo torpe, uso de meio cruel — diante da forma como os disparos foram executados — e recurso que dificultou a defesa da vítima, evidenciando a brutalidade e a possível premeditação dos atos.
Os fatos, conforme a acusação, ocorreram à luz do dia em uma área urbana movimentada de Cuiabá, o que amplificou o choque e a sensação de insegurança na população, com o uso de uma pistola semiautomática. O Ministério Público sublinha que o crime se insere em um contexto de violência doméstica e de gênero, com o acusado se valendo da antiga relação de companheirismo e de sua superioridade física. Este cenário remete à complexidade da violência contra a mulher no Brasil, onde o feminicídio se manifesta como a mais extrema forma de controle, dominação e posse, muitas vezes após o término de um relacionamento.
A Tese do Transtorno Psiquiátrico e o Ciúme Mórbido
Um dos pontos centrais na estratégia da defesa foi a solicitação de um incidente de insanidade mental para o réu, sob a alegação de indícios de transtornos psiquiátricos que poderiam ter influenciado suas ações. De acordo com o psiquiatra forense Hewdy Lobo Ribeiro, que teria avaliado o réu, uma hipótese principal identificada foi a de transtorno delirante persistente relacionado ao ciúme, popularmente conhecido como “ciúme mórbido”. A tentativa de submeter o réu a esta avaliação psiquiátrica completa foi negada pela Justiça, que entendeu não haver elementos suficientes para tal medida ou que a documentação necessária não foi apresentada em tempo hábil para justificar o adiamento. A relevância de teses como esta reside na possibilidade de influenciar a compreensão da culpabilidade e da capacidade de discernimento do réu no momento dos crimes, impactando a dosimetria da pena ou a própria qualificação dos delitos, embora a Justiça tenha mantido o cronograma processual para esta semana.
O Feminicídio em Debate e a Busca por Justiça
O caso de Carlinhos Bezerra reflete não apenas a tragédia individual das vítimas e suas famílias, mas também acende um alerta sobre a persistência da violência contra a mulher no Brasil. O feminicídio, tipificado no Código Penal desde 2015, representa a manifestação mais extrema da misoginia e da desigualdade de gênero, ceifando vidas e desestruturando famílias. A manutenção do júri para esta sexta-feira sinaliza o compromisso do Poder Judiciário em dar uma resposta célere à sociedade e às vítimas de crimes tão bárbaros, assegurando que o processo legal transcorra sem protelações indevidas, em busca da verdade e da justiça.
A expectativa em torno do julgamento é grande, não só em Cuiabá, mas em todo o país, dada a repercussão do crime, o perfil do réu e a complexidade das argumentações da defesa. A decisão da Justiça em manter a data, negando reiteradamente os pedidos de adiamento, reforça a autonomia e a firmeza do judiciário diante das estratégias processuais. O desfecho deste caso será um marco importante na discussão sobre a efetividade da justiça em crimes de violência doméstica e feminicídio, temas que permanecem urgentes na pauta social e jurídica brasileira.
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Fonte: https://g1.globo.com