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Exposição a ftalato presente em plásticos na gestação pode influenciar desenvolvimento de autismo e TDAH, sugere pesquisa

Uma nova pesquisa, publicada na prestigiada revista científica Med, do grupo Cell Press, acende um alerta sobre a presença de substâncias químicas em nosso cotidiano. O estudo, liderado por pesquisadores australianos, estabeleceu uma associação entre a exposição de gestantes ao DEHP – um tipo de ftalato amplamente utilizado para conferir flexibilidade a plásticos – e […]

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Uma nova pesquisa, publicada na prestigiada revista científica Med, do grupo Cell Press, acende um alerta sobre a presença de substâncias químicas em nosso cotidiano. O estudo, liderado por pesquisadores australianos, estabeleceu uma associação entre a exposição de gestantes ao DEHP – um tipo de ftalato amplamente utilizado para conferir flexibilidade a plásticos – e alterações na atividade genética dos bebês. Essas modificações foram, por sua vez, ligadas a uma maior incidência de características relacionadas ao Transtorno do Espectro Autista (TEA) e ao Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) na infância.

A descoberta sublinha a intrínseca relação entre o ambiente e o desenvolvimento humano, especialmente em fases tão cruciais como a gestação. A ubiquidade dos plásticos na vida moderna faz com que a compreensão dos seus potenciais impactos na saúde seja uma pauta urgente para a saúde pública e para a conscientização dos consumidores.

O DEHP: um aditivo onipresente

O DEHP, cujo nome científico é ftalato de di(2-etil-hexila), é um composto orgânico que pertence à família dos ftalatos, um grupo de ésteres de ácido ftálico. Sua principal função na indústria é atuar como plastificante, ou seja, tornar materiais como o PVC (policloreto de vinila) mais maleáveis, duráveis e resistentes. Essa característica o torna extremamente valioso para uma vasta gama de produtos, transformando plásticos rígidos em flexíveis e práticos para diversas aplicações.

A substância, no entanto, não está quimicamente ligada ao polímero, o que significa que pode “migrar” para fora do material ao longo do tempo, especialmente sob certas condições de temperatura, acidez ou contato com gorduras. É por essa razão que o DEHP, e outros ftalatos, podem ser encontrados em diferentes ambientes e, consequentemente, absorvidos pelo corpo humano através da inalação, ingestão ou contato dérmico, transformando-se num desafio global de saúde ambiental.

Onde o DEHP se esconde no dia a dia?

A presença do DEHP é vasta e, muitas vezes, discreta em nosso cotidiano, dependendo da formulação e fabricação de cada produto. Ele pode ser encontrado em itens que vão desde o chão que pisamos até embalagens de alimentos e equipamentos médicos essenciais. Entre os locais mais comuns onde o DEHP pode ser encontrado, destacam-se:

<b>Pisos e revestimentos de vinil:</b> amplamente utilizados em residências, hospitais e escolas, onde sua flexibilidade e durabilidade são valorizadas. Mangueiras e tubos flexíveis: presentes em sistemas de irrigação, instalações hidráulicas e até em produtos de jardinagem. Embalagens e materiais em contato com alimentos: alguns plásticos flexíveis usados para acondicionar produtos alimentícios podem conter DEHP, levantando preocupações sobre a migração da substância para os alimentos, especialmente os gordurosos. Roupas e revestimentos impermeáveis: o PVC flexível é empregado em capas de chuva, cortinas de banheiro e outros itens que necessitam de resistência à água. Produtos médicos: tubos intravenosos, bolsas de soro, cateteres e outros dispositivos feitos com PVC flexível são fontes potenciais de exposição em ambientes hospitalares, o que tem gerado debates importantes na área da saúde sobre alternativas mais seguras.

O estudo australiano e as alterações genéticas identificadas

A pesquisa utilizou dados do Barwon Infant Study, um abrangente estudo australiano que acompanha mães e filhos desde a gravidez. A equipe analisou informações de 847 participantes sobre a exposição pré-natal ao DEHP, com base em metabólitos da substância detectados na urina materna na 36ª semana de gestação. Essa metodologia permite estimar o nível de exposição ambiental da mãe.

Após o nascimento, os cientistas realizaram uma análise detalhada do sangue do cordão umbilical dos recém-nascidos. Foi nesse material genético que identificaram uma rede de genes com alterações significativas na metilação do DNA, que estavam associadas diretamente à exposição ao DEHP. A metilação do DNA é um processo epigenético crucial, funcionando como um “interruptor” que controla a atividade dos genes sem alterar sua sequência. Em termos mais simples, é como um controle de volume que pode aumentar ou diminuir a expressão de um gene, influenciando como o organismo se desenvolve e funciona.

Os pesquisadores notaram que parte dos genes identificados com essas alterações de metilação já eram conhecidos por sua relação com o desenvolvimento cerebral, o autismo e o TDAH. Essa sobreposição de achados reforçou a plausibilidade biológica da conexão. Posteriormente, as crianças foram avaliadas aos dois e quatro anos de idade por meio de questionários comportamentais, revelando relações consistentes entre a exposição pré-natal ao DEHP, as alterações epigenéticas observadas no nascimento e a presença de características ligadas ao autismo e ao TDAH na infância. A robustez dos resultados foi ainda mais solidificada pela avaliação dos achados em conjuntos independentes de dados, incluindo amostras de sangue e tecido cerebral.

Associação não é causalidade: a complexidade do neurodesenvolvimento

É fundamental destacar um ponto crucial enfatizado pelos próprios pesquisadores: o estudo estabelece uma associação, não uma relação de causa e efeito direta. Isso significa que, embora os resultados apontem para uma conexão significativa, não se pode afirmar categoricamente que a exposição ao DEHP durante a gestação *causará* autismo ou TDAH em uma criança específica. A ciência por trás das condições neurodesenvolvimentais é complexa, multifatorial e envolve uma intrincada interação de fatores genéticos e ambientais.

Os achados da pesquisa abrem um importante caminho para novas investigações, sugerindo um possível mecanismo biológico pelo qual o DEHP pode influenciar o neurodesenvolvimento. A epigenética, com sua capacidade de modular a expressão gênica, oferece uma lente através da qual cientistas podem explorar como fatores ambientais interagem com a predisposição genética. Estudos futuros serão essenciais para confirmar essa relação, compreender melhor os mecanismos envolvidos e, se necessário, informar políticas públicas e diretrizes de saúde para proteger as populações mais vulneráveis.

Implicações e a importância da conscientização

A pesquisa australiana reforça a crescente preocupação global com a segurança de aditivos químicos em produtos de consumo, especialmente aqueles que podem afetar o desenvolvimento fetal. Embora o DEHP já tenha sido objeto de restrições em alguns países e para certas aplicações (como em brinquedos infantis e produtos para bebês), sua presença em outros materiais continua a ser uma questão relevante. Para as futuras mães e o público em geral, a informação é uma ferramenta poderosa. Estar ciente da existência de substâncias como o DEHP e de seus potenciais impactos é o primeiro passo para escolhas mais informadas, tanto no âmbito pessoal quanto no apoio a políticas que visem a um ambiente mais seguro.

Este estudo não busca gerar alarme, mas sim fomentar o debate e a pesquisa contínua sobre a interface entre saúde humana e exposição ambiental. A compreensão dos fatores que influenciam condições tão complexas como o autismo e o TDAH é um processo longo e colaborativo, que exige a contribuição de diversas áreas do conhecimento. Os achados servem como um lembrete de que a saúde das próximas gerações pode ser moldada pelas decisões e avanços científicos de hoje.

O Capital Política continuará acompanhando as discussões e os desdobramentos sobre este e outros temas relevantes para a saúde e o bem-estar social. Nosso compromisso é trazer informação de qualidade, com profundidade e contextualização, para que você, leitor, esteja sempre bem informado sobre os assuntos que impactam sua vida e a comunidade. Siga nosso portal para não perder as atualizações e análises sobre os temas mais importantes do cenário nacional e internacional.

Fonte: https://www.metropoles.com

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