Em um marco significativo para o direito animal e de família, a Espanha implementou uma reforma em seu Código Civil que altera radicalmente a forma como os animais de estimação são tratados em casos de divórcio ou separação. Desde janeiro de 2022, cães, gatos e outros pets deixaram de ser considerados meros “bens” para serem reconhecidos legalmente como “seres sencientes”, o que lhes confere o direito a um regime de guarda compartilhada, pensão alimentícia e visitas. A medida representa não apenas uma atualização jurídica, mas um reflexo da crescente valorização dos animais como membros legítimos da família, com impactos profundos na vida de milhares de casais e seus companheiros de quatro patas.
O que muda na prática com a nova lei espanhola?
A principal inovação da legislação espanhola é a descaracterização dos animais de estimação como objetos passíveis de simples divisão de patrimônio. Agora, o bem-estar do pet se torna o critério central nas decisões judiciais. Em vez de simplesmente atribuir o animal a um dos ex-cônjuges, os tribunais devem considerar o ambiente mais adequado para o animal, sua rotina, e quem tem maior capacidade de prover seus cuidados e afeto. Isso se traduz na possibilidade de regimes de guarda compartilhada, nos quais ambos os ex-parceiros dividem o tempo e as responsabilidades com o animal, de forma similar ao que ocorre com filhos.
Além da guarda, a lei também estabelece a obrigatoriedade de um dos cônjuges — geralmente aquele com menor renda ou que não ficará com a guarda primária — contribuir com uma “pensão” para o sustento do animal. Essa pensão cobre gastos essenciais como alimentação, visitas veterinárias, vacinas, medicamentos e outros custos relacionados ao seu bem-estar. A lei também prevê o direito de visitação, garantindo que o parceiro que não tenha a guarda principal possa manter o vínculo e conviver com o animal regularmente, evitando que o divórcio represente um rompimento completo da relação afetiva com o pet.
A evolução do status dos animais: de objetos a membros da família
A mudança legislativa na Espanha não surge do vácuo, mas é o culminar de uma transformação cultural e social. Nas últimas décadas, a percepção dos animais de estimação evoluiu dramaticamente. Longe de serem meros guardiões ou adereços, eles são amplamente vistos como parte integrante da família, oferecendo companhia, apoio emocional e até mesmo desempenhando papéis terapêuticos. Essa “humanização” dos pets, embora controversa para alguns puristas, reflete uma realidade onde lares com animais superam aqueles com crianças em muitos países europeus.
Antes da reforma, a ausência de uma legislação específica gerava conflitos jurídicos complexos e muitas vezes dolorosos. Em casos de separação, a disputa pela guarda do pet era frequentemente travada sob as regras de partilha de bens, o que desconsiderava completamente o vínculo afetivo e as necessidades do animal. Juízes, sem amparo legal claro, muitas vezes precisavam improvisar, levando a decisões inconsistentes e insatisfatórias. A nova lei oferece um caminho mais humanizado e estruturado para lidar com essas situações, colocando o bem-estar animal no centro do debate.
Precedentes e o contexto global da proteção animal
A Espanha não é a pioneira absoluta nesse campo. Outros países europeus já haviam avançado na proteção animal. A França, por exemplo, reconheceu os animais como “seres vivos dotados de sensibilidade” em seu Código Civil em 2015. Portugal, por sua vez, também atualizou sua legislação em 2017 para classificar os animais como seres sensíveis e proteger seu bem-estar, introduzindo conceitos de guarda compartilhada e dever de alimentos em casos de divórcio. Bélgica, Alemanha e Áustria também possuem dispositivos legais que reforçam o status dos animais. Essas iniciativas refletem uma tendência global de reconhecer a complexidade e a importância dos laços entre humanos e animais, impulsionada por movimentos de proteção animal e pela própria sociedade.
A Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização Mundial da Saúde (OMS) há tempos defendem o conceito de 'Uma Saúde', que reconhece a interconexão entre a saúde humana, animal e ambiental. No âmbito jurídico, essa perspectiva tem encorajado governos a adotarem legislações mais abrangentes que considerem o papel dos animais não apenas na ecologia, mas também na dinâmica social e familiar. A medida espanhola se alinha a essa visão, posicionando-se na vanguarda do direito animal em questões de direito de família.
Implicações e desafios: o futuro da guarda compartilhada de pets
Embora a nova lei seja um avanço inegável, sua implementação não está isenta de desafios. Determinar o 'melhor interesse do animal' pode ser subjetivo e exigir a intervenção de especialistas, como veterinários comportamentalistas. A fiscalização do cumprimento das obrigações de pensão e visitação também demandará mecanismos eficazes para garantir que o bem-estar do pet seja mantido, e não apenas uma formalidade. Casos de alienação parental, comuns em disputas de guarda de filhos, podem surgir também em relação aos pets, exigindo sensibilidade e discernimento dos operadores do direito.
Ainda assim, os benefícios superam os obstáculos potenciais. A lei espanhola oferece um arcabouço legal para mediar conflitos que antes eram resolvidos de maneira arbitrária ou prejudicial aos animais. Ela incentiva a cooperação entre ex-parceiros em prol de um ser vivo que ambos amam e, mais importante, protege o animal de ser uma vítima silenciosa da separação, garantindo que ele não perca abruptamente seu lar, sua rotina e seus laços afetivos com ambos os tutores.
O espelho espanhol para a realidade brasileira
Para o Brasil, a experiência espanhola serve como um importante espelho e catalisador de debates. Embora o Código Civil brasileiro ainda classifique os animais como bens móveis, a jurisprudência tem avançado em reconhecer a peculiaridade de sua natureza. Diversas decisões judiciais em diferentes estados já concedem a guarda compartilhada de pets, estabelecem regimes de visitas e até determinam pensão alimentícia, baseando-se no afeto e na responsabilidade que os tutores têm para com eles. No entanto, essas decisões ainda dependem da sensibilidade de cada juiz e da interpretação extensiva das leis existentes, não havendo uma base legal explícita.
Projetos de lei para mudar o status jurídico dos animais no Brasil tramitam há anos no Congresso Nacional, com o objetivo de reconhecê-los como seres sencientes e dotá-los de direitos inerentes à sua condição. A aprovação de leis como a espanhola no exterior fortalece a argumentação de que o Brasil precisa se modernizar e alinhar sua legislação à realidade social e aos avanços de outros países. Para o leitor do Capital Política, esta notícia da Espanha não é apenas um fato distante, mas um convite à reflexão sobre como o direito brasileiro pode evoluir para proteger de forma mais digna os animais que tanto amamos e que são, de fato, parte de nossas famílias.
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Fonte: https://oantagonista.com.br