PUBLICIDADE

Empresário é alvo de operação em MT por suspeita de abastecer garimpo ilegal na Terra Indígena Sararé

G1

A luta contra o garimpo ilegal em Mato Grosso ganhou um novo capítulo com uma operação da Polícia Civil que desvendou uma possível engrenagem crucial para a atividade criminosa. Nesta segunda-feira (27), em Pontes e Lacerda, a cerca de 444 quilômetros de Cuiabá, um empresário de 53 anos, proprietário de uma transportadora e locadora de máquinas agrícolas, foi alvo de mandados judiciais por suspeita de fornecer combustível e logística a garimpos clandestinos, com destaque para a devastada Terra Indígena Sararé.

A ação, conduzida pela Delegacia de Pontes e Lacerda, visava cumprir três ordens judiciais: busca e apreensão na residência do suspeito, suspensão imediata das atividades da empresa e a instalação de uma tornozeleira eletrônica no investigado. As medidas foram autorizadas pela 3ª Vara Criminal do município, sublinhando a gravidade das acusações e a preocupação das autoridades com a infraestrutura que sustenta o avanço da mineração ilegal.

Embora nenhum material ilícito tenha sido encontrado na casa do empresário, os policiais apreenderam seu telefone celular e as chaves de um caminhão de sua empresa, elementos cruciais para a continuidade das investigações. O suspeito foi notificado sobre a paralisação de seus negócios e encaminhado para a colocação da tornozeleira eletrônica. A Polícia Civil mantém as apurações em andamento para identificar outros possíveis envolvidos e desmantelar a rede de apoio logístico que alimenta o garimpo.

Sararé: Um Símbolo da Devastação em Mato Grosso

A Terra Indígena Sararé, mencionada no foco da investigação, tornou-se um triste emblema da pressão minerária no Brasil. Conforme dados do monitoramento do Ibama, ela lidera o ranking nacional com o maior número de alertas de garimpo ilegal, somando alarmantes 1.814 registros. Esse cenário de exploração desenfreada não é um caso isolado, mas reflete uma realidade mais ampla em Mato Grosso.

Um levantamento recente da Operação Amazônia Nativa (Opan) revela que impressionantes 93% das terras indígenas mato-grossenses estão sob a pressão da mineração. Dos 74 territórios registrados na base geográfica da Funai no estado, 69 possuem processos minerários em seu entorno imediato, abrangendo um raio de até 10 quilômetros. Esses números evidenciam uma ameaça sistêmica e crescente à soberania dos povos indígenas e à integridade dos ecossistemas.

A Escalada da Mineração Ilegal e Suas Consequências

A expansão da mineração em Mato Grosso é alarmante. O mesmo levantamento da Opan aponta que o número de processos minerários no estado saltou de 5.926 em 2018 para 13.627 em dados atualizados, um crescimento de quase 130%. Esses processos, que incluem desde autorizações de pesquisa até concessões de lavra, abrangem uma área total de aproximadamente 22,5 milhões de hectares, o equivalente a quase 25% do território mato-grossense – uma extensão comparável à área total do Reino Unido.

A maior concentração desses requerimentos encontra-se na fase de Autorização de Pesquisa, representando 29% do total, com 3.918 processos distribuídos em cerca de 9,3 milhões de hectares. Essa fase, que deveria ser um estudo preliminar, muitas vezes abre portas para a entrada de garimpeiros ilegais, que se aproveitam da precariedade da fiscalização para avançar sobre áreas protegidas.

Além dos danos ambientais incalculáveis – como o desmatamento, a contaminação de rios por mercúrio e a degradação do solo –, a mineração ilegal carrega consigo uma onda de violência. O relatório da Opan detalha o aumento da presença de facções criminosas nas regiões de garimpo, com relatos de tiroteios, ameaças de morte e ataques diretos a aldeias. Esse cenário expõe comunidades indígenas e ribeirinhas a um risco iminente de danos irreparáveis, configurando uma violência estrutural e sistemática que desestabiliza toda a região.

Ouro e Pressão nas Terras Indígenas Vizinhas

A Terra Indígena Sararé, especificamente, ocupa a quarta posição entre as TIs com maior número de requerimentos minerários em seu entorno, somando 72 processos ativos. O ouro é o principal mineral de interesse nessas solicitações, presente em 58 processos, que juntos abrangem cerca de 143 mil hectares. Essa concentração de interesse no ouro explica, em parte, a persistência e a dificuldade em erradicar o garimpo na região.

Outras terras indígenas de Mato Grosso também enfrentam pressões significativas. A TI Vale do Guaporé detém a maior área sob influência de processos minerários em seu entorno, com aproximadamente 237 mil hectares. Em seguida, aparecem a TI Escondido, com 195 mil hectares, e a TI Piripkura, lar de povos indígenas isolados, com 157 mil hectares. A proteção dessas áreas e de seus povos é um desafio urgente e complexo, que exige uma ação coordenada e eficaz do Estado.

A Importância da Logística no Garimpo Ilegal

A operação contra o empresário de Pontes e Lacerda destaca um aspecto crucial frequentemente subestimado na dinâmica do garimpo ilegal: a logística. Grandes operações de mineração, mesmo clandestinas, dependem de uma cadeia de suprimentos robusta. Máquinas pesadas, como escavadeiras, geradores e motores, exigem quantidades massivas de combustível, além de peças, alimentos e comunicação.

O fornecimento de combustível irregular, como o investigado nesta ação, é o sangue que irriga essas operações ilegais. Sem transporte e armazenamento adequados, os garimpos não conseguem funcionar em escala, o que os torna alvos estratégicos para as forças de segurança. Desmantelar essa rede de apoio logístico é tão vital quanto destruir os equipamentos no local do garimpo, pois atinge a capacidade operacional e financeira dos criminosos na raiz.

A investigação em curso e a prisão de indivíduos que facilitam a logística do garimpo ilegal são passos importantes para combater um problema que transcende a esfera ambiental e impacta diretamente a segurança pública, a saúde dos povos indígenas e a imagem do Brasil no cenário internacional. O caso ressalta a necessidade de uma vigilância constante e de ações de inteligência que desestruturem não apenas as frentes de trabalho, mas toda a complexa rede de apoio que sustenta essa atividade criminosa.

Para se manter atualizado sobre os desdobramentos desta e de outras notícias relevantes sobre política, meio ambiente e sociedade em Mato Grosso e no Brasil, continue acompanhando o Capital Política. Nosso compromisso é com a informação aprofundada e contextualizada, essencial para compreender os desafios e as transformações do nosso tempo.

Fonte: https://g1.globo.com

Leia mais

PUBLICIDADE