Anúncio não encontrado.

PUBLICIDADE

ECA completa 36 anos: avanços inegáveis e os desafios persistentes na proteção de crianças e adolescentes

© Colégio Cruzeiro/Divulgação

Nesta semana, o Brasil marcou os 36 anos da Lei 8.069, que instituiu o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Celebrada em 13 de maio, a data não apenas reverencia um dos mais importantes marcos legislativos do país, mas também impulsiona um debate crucial sobre as políticas públicas destinadas a crianças e adolescentes. Em suas mais de três décadas de existência, o ECA consolidou um novo paradigma de proteção, embora ainda enfrente desafios complexos e a emergência de novas ameaças no cenário contemporâneo.

Um Novo Paradigma: Da Doutrina da Situação Irregular à Proteção Integral

Promulgado pouco depois da Constituição Federal de 1988, o ECA representou uma ruptura significativa com o antigo Código de Menores. Antes dele, crianças e adolescentes eram frequentemente vistos como 'objetos' de intervenção do Estado, tratados por uma 'doutrina da situação irregular', focada na punição e tutela. O Estatuto, contudo, inaugurou o princípio da prioridade absoluta, reconhecendo-os como 'sujeitos de direitos', uma visão alinhada às convenções internacionais de direitos humanos.

Essa mudança legal e filosófica implicou que a garantia dos direitos da criança e do adolescente deve vir em primeiro lugar na formulação de políticas públicas, na destinação de recursos e nas decisões judiciais. “Por causa do ECA, a gente consegue enxergar crianças e adolescentes como sujeitos de direitos”, resume Andressa Ferreira Cândido, assistente social da Secretaria de Estado de Justiça e Cidadania do Paraná, que trabalha diretamente com adolescentes internados no sistema socioeducativo do estado. Essa visão é a base para a implementação de todas as demais garantias presentes na legislação.

Conquistas Solidificadas e o Papel Essencial dos Conselhos Tutelares

As três décadas e meia de vigência do ECA foram acompanhadas por avanços inegáveis em diversas áreas. O país testemunhou uma redução considerável na mortalidade infantil, fruto de investimentos em saúde básica, campanhas de vacinação e saneamento. Houve também a universalização do acesso ao ensino fundamental, embora os desafios persistam na qualidade da educação e na garantia da conclusão do ensino médio. As regras de adoção foram aperfeiçoadas, priorizando o bem-estar da criança e a celeridade dos processos.

Um dos pilares mais visíveis do ECA é a rede nacional de Conselhos Tutelares. Eleitos pela população em cada município, esses órgãos autônomos têm o papel fundamental de zelar pelo cumprimento dos direitos da criança e do adolescente. Eles atuam recebendo denúncias de violações, aplicando medidas de proteção e encaminhando casos para a rede de serviços públicos, desempenhando uma ponte crucial entre a família, a comunidade e o Estado, garantindo a concretização das garantias previstas na lei.

As Lacunas Persistentes: Orçamento, Acesso e Vulnerabilidade

Apesar das conquistas, a jornada para assegurar plenamente os direitos de crianças e adolescentes está longe de ser completa. Maurício Cunha, presidente executivo do ChildFund Brasil, organização que apoia jovens em situação de vulnerabilidade, pondera que, se por um lado houve grandes avanços, por outro, “quando a gente olha para os desafios, a gente vê que eles também cresceram muito”.

Um dos maiores entraves é a falta de monitoramento e transparência sobre o orçamento destinado à infância e adolescência. “Andamos menos que deveríamos. Por exemplo, o tema do orçamento da criança adolescente: não temos o monitoramento do orçamento da criança”, lamenta Cunha. Os investimentos estão pulverizados em diversas rubricas de saúde, assistência social e educação, tornando difícil mensurar o quanto é de fato aplicado. Essa fragmentação dificulta a avaliação da eficácia das políticas e a otimização dos recursos.

Outra lacuna crítica, destacada por Cunha, é o acesso à educação infantil: “Um terço das crianças ainda não tem acesso a creche”. A falta de vagas em creches não apenas compromete o desenvolvimento integral na primeira infância – período crucial para o desenvolvimento cognitivo e social – mas também impacta a autonomia das mães e a inserção feminina no mercado de trabalho, perpetuando ciclos de vulnerabilidade social.

A Era Digital e os Novos Vetores de Violência

Além dos desafios estruturais, a sociedade brasileira confronta novos riscos, especialmente com o advento e a massificação da internet. Maurício Cunha aponta uma “regressão” no tema da violência, seja ela física, psicológica ou sexual, em grande parte impulsionada pelo ambiente digital. A rede se tornou um campo fértil para criminosos, que se organizam em redes de pedofilia, acessam e trocam imagens abusivas, e se fazem passar por crianças para aliciar vítimas.

A exposição a cyberbullying, o aliciamento online e a disseminação de conteúdo impróprio são preocupações crescentes para pais, educadores e autoridades. A facilidade de acesso à informação e a interconexão global, embora benéficas, criaram um cenário complexo onde a proteção das crianças e adolescentes exige vigilância constante e ferramentas legais atualizadas para combater novas formas de abuso e exploração.

Nesse contexto, o “ECA Digital”, instituído pela Lei 14.811/2024, aponta para uma melhoria significativa ao buscar responsabilizar as grandes plataformas de tecnologia (big techs). A legislação criminaliza o bullying e o cyberbullying e impõe a essas empresas mecanismos de verificação de idade e deveres de cuidado, um avanço fundamental para o combate aos crimes digitais. Contudo, como ressalta Cunha, o ECA Digital “precisa ser melhor regulamentado. Por exemplo, a gente ainda não sabe como vão funcionar esses mecanismos de verificação de idade”, indicando que a efetividade das novas regras dependerá de sua aplicação prática e da cooperação entre setores.

O Dilema da Maioridade Penal e a Realidade do Sistema Socioeducativo

Um debate que ressurge periodicamente no Brasil é a redução da maioridade penal. No entanto, especialistas como Maurício Cunha e Andressa Cândido apontam que o foco deveria estar na prevenção e no fortalecimento de políticas públicas eficazes. O envolvimento de adolescentes em atos infracionais e a consequente internação no sistema socioeducativo são vistos como um sintoma de falhas sociais mais amplas.

O sistema socioeducativo, previsto para ser reeducativo e de reintegração social, ainda apresenta grandes desafios. Andressa Ferreira Cândido descreve que a internação “tem estrutura de privação de liberdade, que é muito semelhante ao sistema penitenciário”. Isso desvirtua o propósito original do Estatuto e reforça a visão de Maurício Cunha de que “um menino parar nessa condição, chegar a essa condição, é a falência da sociedade”. A ênfase, portanto, deve ser no investimento em programas preventivos e no fortalecimento das capacidades protetivas familiares e comunitárias.

A redução da maioridade penal, defendida por alguns, é vista com preocupação pelos especialistas. Cândido alerta que o risco de adolescentes serem recrutados por facções criminosas dentro do sistema prisional comum é grande. “Indo para o sistema prisional comum, esse adolescente de 16, 17 anos, ele vai estar em contato com pessoas mais velhas, que vão utilizá-los. Eles vão acabar sendo aviãozinho dentro das penitenciárias”, explica. Essa realidade agravaria o problema da criminalidade, ao invés de solucioná-lo, transformando o adolescente em um elo mais vulnerável do crime organizado.

Ao completar 36 anos, o Estatuto da Criança e do Adolescente se reafirma como uma legislação visionária e essencial. Seu legado de proteção integral é inquestionável, mas sua plena concretização demanda um compromisso contínuo da sociedade e do Estado. Os desafios, sejam eles estruturais como o financiamento e o acesso à educação, ou emergentes como as ameaças no ambiente digital e a eficácia do sistema socioeducativo, exigem atenção constante, adaptação e a construção de soluções inovadoras para garantir que cada criança e adolescente no Brasil possa, de fato, ter seus direitos assegurados.

Para se manter atualizado sobre estes e outros temas cruciais que impactam a sociedade brasileira, com análises aprofundadas e informação de qualidade, continue acompanhando o Capital Política. Nosso compromisso é trazer a você uma visão completa e contextualizada dos fatos que moldam o país.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

Leia mais

PUBLICIDADE