Um escândalo que entrelaça o Poder Judiciário a uma complexa rede de lavagem de dinheiro ganha novos contornos com a chocante revelação de que o suposto 'dono' de uma empresa, que movimentou centenas de milhões de reais e realizou pagamentos vultosos a escritórios de advocacia de figuras públicas, incluindo uma ministra do Superior Tribunal Militar (STM), admitiu ser um mero 'laranja'. Ericsson de Azevedo, oficialmente registrado como proprietário da ACX ITC Serviços de Tecnologia, confessou à Polícia Civil de São Paulo ter vendido seus dados por irrisórios R$ 5 mil para a abertura do CNPJ, expondo a sofisticação e a audácia de esquemas criminosos que se infiltram na economia formal e nas mais altas esferas.
A ACX ITC, uma empresa com capital declarado de mais de R$ 100 milhões, foi identificada no relatório final da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS como parte essencial de uma estrutura criminosa de lavagem de dinheiro, supostamente operada pelo empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como 'Careca do INSS'. Esta vasta rede, conforme apurou a CPMI, teria movimentado a impressionante quantia de R$ 39 bilhões, com tentáculos que se estendem até organizações criminosas de grande porte, lançando uma sombra sobre a lisura de transações que envolvem a cúpula do poder.
O 'Laranja' e a Desfaçatez do Esquema
Ericsson de Azevedo, um paulistano de 50 anos, morador do bairro do Jaçanã, na Zona Norte de São Paulo, levou uma vida em total contraste com a imagem de um empresário com capital milionário. Em depoimento à 2ª Delegacia da Divisão de Investigações sobre Entorpecentes em janeiro, Azevedo detalhou sua participação no esquema. Ele relatou que, por volta de 2021, em meio a graves dificuldades financeiras, forneceu seus dados para a abertura da ACX ITC em um campo de futebol próximo à sua residência, recebendo R$ 5 mil pelo 'favor'. Além desse valor inicial, ele recebia mil reais cada vez que era solicitado a assinar documentos, sem jamais saber o teor do que rubricava e sem conhecer as pessoas que os entregavam, que eram sempre diferentes.
A vida financeira de Ericsson, conforme seu próprio relato à polícia, resume-se à confecção de pipas e rabiolas e à venda de rifas, com uma renda mensal que mal atinge R$ 1 mil. A gritante contradição entre a humilde realidade de Azevedo e o capital social robusto e o vultoso volume de transações da ACX ITC escancara a tática dos 'laranjas' – indivíduos usados para ocultar os verdadeiros controladores de empresas, blindando-os de investigações e responsabilidades legais. Esta prática é um pilar da lavagem de dinheiro, dificultando o rastreamento da origem e do destino de recursos ilícitos e corroendo a confiança nas estruturas financeiras e jurídicas do país.
A Teia de R$ 39 Bilhões e Conexões Suspeitas
A ACX ITC não é um caso isolado dentro de uma investigação maior. Ela se insere em uma rede de mais de 40 firmas interligadas que, segundo a CPMI do INSS, operava como um gigantesco esquema de lavagem de dinheiro. A dimensão da rede é assustadora, com movimentação financeira totalizando R$ 39 bilhões, indicando uma estrutura complexa e ramificada, capaz de processar somas estratosféricas de capital ilícito. A gravidade da situação foi ainda mais sublinhada quando a Victory Trading, outra empresa associada a essa mesma rede, foi sancionada pelo Departamento do Tesouro dos EUA sob suspeita de ter ligações com o Primeiro Comando da Capital (PCC), uma das maiores e mais perigosas organizações criminosas do Brasil. Essa conexão internacional e com o crime organizado demonstra a alta periculosidade e a abrangência das atividades investigadas, que transcendem a esfera econômica para tocar diretamente a segurança pública e a estabilidade das instituições nacionais.
Pagamentos a Membros do Judiciário: A Ministra Verônica Sterman
O escritório de advocacia da ministra do Superior Tribunal Militar (STM), Verônica Sterman, recebeu R$ 700 mil da ACX ITC. Os pagamentos, conforme um Relatório de Inteligência Financeira (RIF), foram realizados em uma única parcela por meio de uma conta bancária da empresa entre outubro de 2024 e fevereiro de 2025. O RIF apontou que essas transações ocorreram em um período que, segundo o documento original, seria anterior à posse de Sterman como ministra do STM, cargo para o qual foi nomeada pelo presidente Lula (PT) em setembro do ano passado. Questionada sobre o assunto em janeiro, a ministra explicou que o valor se referia à elaboração de três pareceres jurídicos sobre temas criminais relacionados às atividades da empresa. No entanto, a ausência de registros de sua atuação em processos judiciais em favor da ACX ITC ou de outras empresas do grupo levanta questionamentos sobre a natureza exata e a documentação desses serviços. A assessoria de imprensa do STM foi procurada novamente para obter um posicionamento atualizado, mas não houve resposta até o fechamento desta reportagem, reforçando a necessidade de transparência em casos que envolvem membros do judiciário e empresas sob investigação criminal de tamanha magnitude.
O Ex-Ministro Nefi Cordeiro Também na Mira
A rede de pagamentos da ACX ITC se estendeu a outros nomes de peso do Judiciário. O escritório de advocacia do ex-ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Nefi Cordeiro, recebeu R$ 595 mil da mesma empresa. De acordo com um RIF do Coaf encaminhado à CPMI do INSS, foram três lançamentos, totalizando R$ 445 mil, entre outubro de 2023 e outubro de 2024, além de um pagamento por meio de cheque no valor de R$ 150 mil, sacado pelo ex-ministro. É importante ressaltar que todos esses pagamentos ocorreram após sua saída do STJ em março de 2021, motivada por questões de saúde. Nefi Cordeiro reiterou que os valores foram recebidos como honorários advocatícios por serviços jurídicos prestados em ações judiciais já encerradas, declarando desconhecer Ericsson de Azevedo. A reincidência de pagamentos substanciais a escritórios de advocacia de ex-membros e membros do judiciário por uma empresa com fortes indícios de ser fachada em uma rede de lavagem de dinheiro acende um alerta sobre a necessidade de rigorosa apuração e fiscalização, visando proteger a credibilidade das instituições.
Operação Saturno: Suspeitas de Tráfico e Fortes Indícios de Ilícitos
A confissão de Ericsson de Azevedo é parte integrante das investigações da chamada Operação Saturno, deflagrada pela Polícia Civil de São Paulo. O relatório final do inquérito, encaminhado à Justiça e ao Ministério Público de São Paulo (MPSP) em maio, é categórico: o delegado Julio Jesus Encarnação afirma que a ACX ITC possui 'fortes indícios de envolvimento com recursos oriundos do tráfico'. A empresa, de acordo com as investigações, movimentou R$ 918,3 milhões e foi identificada nos Relatórios de Inteligência Financeira como 'possível integrante de estrutura voltada à ocultação e dissimulação de valores de origem ilícita'. A quebra do sigilo fiscal da ACX ITC pela CPMI do INSS ocorreu devido à sua posição como destinatária de recursos da Arpar Participações e Empreendimentos, controlada pelo já mencionado empresário Antônio Carlos Camilo Antunes. A profundidade dessas investigações e as implicações de suas descobertas ressaltam a urgência em desmantelar essas redes criminosas que corroem a economia e a confiança nas instituições brasileiras.
Este intrincado enredo de pagamentos suspeitos, 'laranjas' e redes de lavagem de dinheiro, com possíveis elos com o crime organizado, sublinha a perenidade do desafio de combater a corrupção e a criminalidade financeira no Brasil. As investigações em curso são cruciais para desvendar todos os elos dessa cadeia e responsabilizar os envolvidos, garantindo que a justiça seja feita e a integridade das instituições públicas seja preservada. Continue acompanhando o Capital Política para não perder nenhum desdobramento desta e de outras notícias que impactam diretamente a vida dos cidadãos, com análises aprofundadas, uma variedade de temas relevantes e um compromisso inabalável com a informação de qualidade e contextualizada.