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De Pádua a Mato Grosso: o inusitado caminho de um casal de professores “perseguidos” por Santo Antônio

G1

A fé, muitas vezes, manifesta-se por caminhos surpreendentes, entrelaçando destino, coincidências e uma boa dose de humor. Para os professores universitários Bruno Zucherato e Bruna Albuquerque, essa jornada os levou de suas raízes italianas a uma nova vida em Mato Grosso, sob a "vigilância" constante de Santo Antônio. Longe de uma devoção imposta, o casal costuma brincar que não foram eles que escolheram o santo como padroeiro, mas que foi Santo Antônio quem os elegeu como devotos, numa série de acontecimentos que eles descrevem com leveza como uma verdadeira perseguição divina.

As Raízes Italianas e a Primeira Conexão

A história dessa relação singular começa muito antes de Bruno e Bruna se conhecerem. As famílias de ambos, por uma daquelas coincidências que marcam a narrativa, compartilham origens na mesma região da Itália, próxima à cidade de Pádua. Não se trata de uma mera localidade; Pádua é o renomado centro de devoção a Santo Antônio, onde o santo repousa em sua basílica e atrai milhões de fiéis anualmente. Essa proximidade geográfica e espiritual gerou um vínculo profundo que atravessou gerações em ambas as linhagens familiares, mesmo para aqueles que não se consideravam fervorosamente religiosos.

Entre avós, bisavós e tios, a figura de Santo Antônio era onipresente, seja em nomes batismais – "Antônio" era uma presença constante – ou em objetos de fé como imagens, terços e outras lembranças que ornamentavam os lares. Essa herança cultural e religiosa, embora nem sempre abraçada de forma ostensiva pelos jovens Bruno e Bruna, sedimentou uma base invisível para o que viria a seguir, demonstrando como certas tradições familiares se mantêm latentes, prontas para serem redescobertas em momentos inesperados.

Portugal: A Aproximação Inesperada

Anos depois, uma mudança para Portugal aproximou o casal ainda mais da trajetória do santo, de forma quase acadêmica e cotidiana. Bruno, em seus estudos na prestigiada Universidade de Coimbra, uma das mais antigas e respeitadas da Europa, descobriu que o próprio Fernando de Bulhões – nome de batismo de Santo Antônio – havia estudado e lecionado na mesma instituição séculos antes. Essa revelação adicionou uma camada intelectual e histórica à devoção, conectando o santo à sua própria jornada acadêmica de uma forma singular.

O destino, ou Santo Antônio, teceu mais um laço. Durante o período em que moraram em Portugal, Bruno e Bruna foram residir precisamente na freguesia de Santo António dos Olivais, um local intrinsecamente ligado à vida religiosa do padroeiro. A igreja onde o santo celebrava missas, um marco histórico e de fé, ficava a poucos passos da residência do casal. "Tinha a igreja, tinha a festa do santo, tinha toda aquela presença no cotidiano. Aos poucos fomos nos aproximando mais da devoção", recorda Bruno, ilustrando como a vivência em um ambiente permeado pela figura do santo foi, sutil e progressivamente, transformando sua percepção e aprofundando seu laço com a fé popular.

Foi também durante o noivado, ainda na Europa, que o casal fez uma peregrinação a Pádua, cidade que guarda os restos mortais do santo em sua imponente basílica. Na ocasião, receberam uma bênção especial para suas alianças, um rito que solidificou ainda mais o elo que se formava com o padroeiro e com as tradições centenárias da Igreja Católica.

A "Rendição" em Barra do Garças, Mato Grosso

A travessia do Atlântico e a mudança para Barra do Garças, em Mato Grosso, trouxe o que para eles foi a "prova final" da presença do santo em suas vidas. Sem carro na época, a busca por uma residência central era uma prioridade prática para facilitar a locomoção na nova cidade. Escolheram um imóvel em frente à Praça da Matriz, acreditando ser apenas uma boa localização. A surpresa veio com a descoberta: a igreja imponente diante da nova casa era dedicada, mais uma vez, a Santo Antônio.

Esse foi o ponto de virada, o momento da "rendição" definitiva, que transcendeu a mera coincidência geográfica. "Naquele momento a gente se rendeu. Pensamos: ele já estava presente o tempo todo. A gente costuma dizer que Santo Antônio passou a vida inteira nos perseguindo", relata Bruno, entre o espanto e a aceitação. Foi então que decidiram adotar o santo como padroeiro de forma consciente e ativa, integrando-o plenamente à sua vida. A devoção se enraizou de tal modo que, no buquê de casamento de Bruna, esteve presente uma relíquia, a famosa 'lasca do pau do Santo', um gesto que simboliza a bênção e a proteção do padroeiro sobre a união, conectando a fé pessoal a práticas de devoção popular.

Desde então, a devoção se tornou parte integrante da rotina do casal e de sua família. Eles participam ativamente de novenas e trezenas, e veem na sequência de "coincidências" não um acaso, mas um sinal de proteção e um caminho guiado. O humor, contudo, permanece na forma como eles narram sua história: "Os advogados chamariam isso de uma devoção culposa, quando você acaba se tornando devoto sem ter essa intenção", brinca Bruno, reforçando a ideia de que foram mais escolhidos do que propriamente elegeram o santo.

A Festa de Santo Antônio: Fé, Cultura e Patrimônio Imaterial

A história de Bruno e Bruna se entrelaça, de forma orgânica, com uma das mais importantes e vibrantes manifestações de fé e cultura do município: a tradicional Festa de Santo Antônio de Barra do Garças. Em 2026, o evento celebra sua 73ª edição, uma marca de longevidade e profunda conexão com a identidade local e regional. Iniciada em 29 de maio, a programação culmina neste domingo (14), reunindo milhares de fiéis em missas, procissões, quermesses e diversas manifestações culturais que celebram o padroeiro, transformando a cidade em um epicentro de fé e convivência.

Este ano, a celebração ganha um significado ainda mais especial, marcando a primeira edição da festa após seu reconhecimento oficial como Patrimônio Histórico, Cultural e Imaterial de Mato Grosso. Essa titulação, conferida por sua relevância cultural, sua capacidade de mobilizar a comunidade e a preservação de tradições populares ao longo de décadas, não só eleva o status do evento, mas também assegura a proteção e o incentivo à sua continuidade. O reconhecimento garante que as futuras gerações possam experimentar a mesma fé e o mesmo senso de comunidade que Bruno e Bruna, hoje, ajudam a cultivar, reforçando o papel da fé na construção da identidade regional e a importância de preservar manifestações que são pilares da cultura local e do imaginário coletivo.

A trajetória singular de Bruno e Bruna, de uma devoção familiar italiana a uma "rendição" em terras mato-grossenses, ressalta a capacidade da fé de se manifestar por vias inesperadas e profundamente humanizadas. Sua história, carregada de pitadas de humor e surpresa, serve como um microcosmo da própria Festa de Santo Antônio em Barra do Garças: uma celebração viva, que se reinventa e se fortalece a cada ano, unindo o sagrado e o popular, o individual e o coletivo. É um lembrete vívido de como a cultura e a espiritualidade moldam nossas vidas de maneiras profundas, por vezes misteriosas, e até divertidas.

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Fonte: https://g1.globo.com

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