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Cacique Raoni é internado em UTI com infecção grave em Mato Grosso: o estado de saúde do líder indígena e seu legado

G1

O líder indígena Raoni Metuktire, uma das mais emblemáticas figuras na defesa dos povos originários e da floresta amazônica, foi internado em estado grave na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Dois Pinheiros, em Sinop, Mato Grosso. Aos 94 anos, o cacique da tribo caiapó deu entrada na unidade de saúde no último domingo (14), após um rápido agravamento de seu quadro de saúde, que preocupa familiares, apoiadores e a vasta comunidade internacional que acompanha sua incansável luta.

Segundo o boletim médico divulgado nesta segunda-feira (15), Raoni foi transferido de avião de sua residência, na região de Peixoto de Azevedo, uma área remota que sublinha os desafios de acesso à saúde para muitos povos indígenas. Exames iniciais indicaram alterações na função renal e marcadores de um processo infeccioso severo. A equipe médica trabalha com a hipótese principal de sepse com foco pulmonar, decorrente de uma pneumonia broncoaspirativa associada a episódios de vômito. Atualmente, ele recebe hidratação venosa, antibióticos de amplo espectro e monitoramento intensivo, mas seu estado permanece grave, exigindo acompanhamento ininterrupto de uma equipe multiprofissional.

Raoni Metuktire: Uma Voz Global pela Amazônia

A notícia da internação de Raoni reverbera muito além das fronteiras de Mato Grosso, alcançando ativistas, líderes políticos e organizações ambientais em todo o mundo. Não é exagero afirmar que o Cacique Raoni se tornou um dos rostos mais reconhecidos na luta pela preservação da Amazônia e pelos direitos dos povos indígenas. Sua jornada de ativismo, iniciada em 1954, muito antes de as questões ambientais ganharem o destaque global que têm hoje, transformou-o em um embaixador informal, mas extremamente influente, das causas indígenas.

Com a capacidade de dialogar tanto com sua gente quanto com chefes de estado, Raoni aprendeu português e dedicou sua vida a ser uma ponte entre mundos. Sua atuação foi crucial para a inclusão e o reconhecimento dos direitos dos povos indígenas na Constituição Federal de 1988, um marco legal que ainda hoje serve de base para a proteção de suas terras e culturas. Sua imagem, muitas vezes adornada com seu tradicional labret, é sinônimo de resistência e sabedoria ancestral.

A projeção internacional do cacique ganhou força em 1977, com a exibição de um documentário sobre sua vida no prestigiado Festival de Cannes, na França. Uma década depois, em 1989, ele embarcou em uma turnê histórica por 17 países ao lado do músico Sting, ex-baixista da banda inglesa The Police, levando a mensagem da floresta diretamente aos palcos globais e para a consciência de milhões. Essa visibilidade se consolidou ao longo das décadas, com encontros notáveis, como a audiência com o então presidente da França, François Hollande, no Palácio do Eliseu em 2012, onde reiterou seu apelo pela proteção da Amazônia. Mais recentemente, em 2023, sua presença ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na rampa do Palácio do Planalto simbolizou a retomada de um diálogo mais aberto com os povos indígenas no Brasil. Em 2024, ele esteve no Vaticano, entregando uma carta ao Papa Francisco sobre as urgências das mudanças e catástrofes climáticas, reafirmando sua estatura como líder global.

A Saúde Frágil de um Guerreiro Centenário

A avançada idade do Cacique Raoni e sua intensa agenda de compromissos há tempos preocupam seus familiares e a equipe que o acompanha. Seu histórico médico é extenso e reflete uma vida de desafios e a inevitável deterioração física imposta pelo tempo. Esta não é a primeira vez que Raoni enfrenta internações graves. Somente neste ano, em maio, ele esteve no mesmo hospital em Sinop por fortes dores abdominais relacionadas a uma hérnia antiga, recebendo alta após dois dias. Contudo, a melhora foi breve, e cinco dias depois, ele retornou à UTI para tratar um quadro de pneumonia, permanecendo internado por uma semana.

Sua ficha médica revela múltiplas comorbidades, como Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), cardiopatia com marcapasso implantado e insuficiência cardíaca, condições que o tornam particularmente vulnerável a infecções respiratórias. Em setembro de 2022, ele já havia passado por uma cirurgia para implante de marcapasso no mesmo hospital em Sinop, após ser diagnosticado com um problema cardíaco. Antes disso, em julho de 2020, foi internado em Colíder com complicações gastrointestinais e desidratação, sendo novamente transferido para Sinop. Poucos meses depois, em setembro do mesmo ano, uma pneumonia o levou novamente ao hospital. Naquela ocasião, sua saúde também foi abalada por um quadro depressivo após a perda de sua companheira de vida, Bekwyjkà Metuktire, um golpe emocional que se somou aos desafios físicos de sua idade.

O Simbolismo da Luta pela Vida de Raoni

A saúde do Cacique Raoni é vista por muitos não apenas como uma questão pessoal, mas como um termômetro da própria luta ambiental e indígena no Brasil. Sua vida, marcada por uma resiliência notável e uma dedicação inabalável, é um espelho das florestas que ele defende: constantemente ameaçadas, mas resistindo com a força da natureza. Cada internação, cada boletim médico, acende um alerta sobre a fragilidade dos ecossistemas e dos povos que neles habitam, confrontados por pressões externas e pela indiferença que ainda persistem.

A região de Mato Grosso, onde Raoni reside e onde está internado, é um epicentro de tensões ambientais, com o avanço do agronegócio e a intensificação do desmatamento na Amazônia. A voz de Raoni, que se ergueu contra essas ameaças por décadas, é mais crucial do que nunca. Sua ausência, mesmo que temporária, do cenário público, levanta preocupações sobre a continuidade de sua mensagem e o vácuo que um dia ele deixará. No entanto, o legado de sua vida e a semente de ativismo que ele plantou em várias gerações de indígenas e não-indígenas garantem que sua luta persistirá, independentemente de sua condição física, inspirando a defesa de um futuro mais sustentável para todos.

Acompanhe o Capital Política para atualizações sobre o estado de saúde do Cacique Raoni e análises aprofundadas sobre os desafios enfrentados pelos povos indígenas e pela preservação ambiental no Brasil e no mundo. Nosso compromisso é com a informação relevante e contextualizada, oferecendo aos nossos leitores uma cobertura completa e de qualidade sobre os temas que moldam nossa sociedade.

Fonte: https://g1.globo.com

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