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Cacique Raoni: Líder indígena é transferido para São Paulo com quadro grave após dias na UTI em Mato Grosso

G1

O Cacique Raoni Metuktire, uma das figuras mais emblemáticas e respeitadas na luta pelos direitos indígenas e pela preservação da Amazônia, foi transferido por via aérea do Hospital Dois Pinheiros, em Sinop (MT), para o renomado Hospital São Paulo, ligado à Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A mudança ocorre após o líder Kayapó, de 94 anos, passar cinco dias internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) em Mato Grosso, enfrentando um processo infeccioso grave que demandou acompanhamento médico especializado em uma unidade de referência.

A decisão pela transferência, conforme comunicado pela equipe médica, teve como objetivo principal garantir a continuidade da assistência em um centro com maior capacidade para o acompanhamento cirúrgico e o tratamento de condições complexas. Raoni foi diagnosticado com sepse com foco pulmonar, provocado por uma pneumonia broncoaspirativa associada a episódios de vômito. Essa condição, que afeta o funcionamento renal e exige cuidados intensivos, sublinha a gravidade do seu estado de saúde, mesmo com a notável resiliência do cacique.

Um quadro de saúde delicado, mas com notável resiliência

A saúde de Raoni Metuktire tem sido monitorada de perto, e o médico Douglas Yanai, que o acompanhou na transferência e faz parte da equipe assistencial em Sinop, destacou a força do líder indígena. "Ele é um homem muito forte. Se nós olharmos o histórico dele, das internações anteriores, a gente pode dizer isso, porque conhece e acompanha a saúde dele desde 2017", afirmou Yanai, ressaltando a capacidade de recuperação de Raoni ao longo dos anos. No entanto, o avançar da idade e a presença de múltiplas comorbidades tornam cada episódio de saúde um desafio considerável, exigindo atenção contínua e especializada.

Um histórico de internações e desafios

O episódio atual não é o primeiro a demandar internação de Raoni. Em maio deste ano, ele já havia sido hospitalizado no mesmo hospital de Sinop devido a fortes dores abdominais causadas por uma hérnia antiga, recebendo alta após dois dias. Pouco tempo depois, retornou à UTI para tratar um quadro de pneumonia, permanecendo por uma semana. Seu histórico médico inclui ainda Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), cardiopatia com marcapasso implantado e insuficiência cardíaca, que são fatores de risco para quadros infecciosos graves.

Em setembro de 2022, o cacique passou por uma cirurgia para implante de marcapasso, também em Sinop. Antes disso, em 2020, foi internado em Colíder e, posteriormente, transferido para Sinop com complicações gastrointestinais e desidratação. No mesmo ano, enfrentou um diagnóstico de pneumonia na sua aldeia, no Parque Indígena do Xingu, e lidou com um período de depressão após a perda de sua esposa, Bekwyjkà Metuktire. Este complexo panorama de saúde reflete não apenas o desgaste natural da idade, mas também a vida de luta e os desafios enfrentados por lideranças indígenas.

A voz da floresta e seu legado global

Cacique Raoni Metuktire transcende a figura de um líder tribal; ele é um símbolo global da resistência indígena e da urgência na proteção ambiental. Nascido na década de 1930, ele iniciou seu ativismo em 1954 e aprendeu português para defender com mais veemência os direitos de seu povo e a demarcação de terras, tornando-se uma voz crucial durante a formulação da Constituição de 1988, que reconheceu importantes direitos aos povos indígenas no Brasil.

Sua projeção internacional começou em 1977, com um documentário exibido no Festival de Cannes. Em 1989, ao lado do músico Sting, realizou uma turnê por 17 países, alertando o mundo para a destruição da Amazônia. Desde então, tem sido recebido por chefes de Estado, como o então presidente francês François Hollande, e organizações internacionais, sempre levando a mensagem de que a floresta e seus povos são guardiões essenciais para o equilíbrio do planeta. Em 2020, recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), um reconhecimento à sua incansável dedicação.

Mais recentemente, Raoni manteve-se ativo, participando de momentos históricos para o país e o mundo. Em 2023, sua presença ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na rampa do Palácio do Planalto simbolizou a retomada da pauta ambiental e indígena no governo federal. Em 2024, encontrou-se com o Papa Francisco no Vaticano, entregando uma carta que abordava as mudanças climáticas e as catástrofes ambientais, reforçando seu papel como embaixador dos povos da floresta diante de líderes globais. A sua saúde, portanto, não é apenas uma questão pessoal, mas uma preocupação para o movimento indígena e para todos que acompanham as pautas socioambientais.

A saúde indígena em pauta

A internação de Raoni lança luz sobre os desafios da saúde indígena no Brasil. Embora ele, por sua notoriedade, tenha acesso a hospitais de referência, a realidade para a maioria dos povos indígenas é de difícil acesso a cuidados médicos especializados, sobretudo em aldeias remotas. As complexidades de doenças como a pneumonia broncoaspirativa e a sepse exigem infraestrutura e equipes que muitas vezes não estão disponíveis nas regiões onde vivem as comunidades. A necessidade de transferências aéreas, como a de Raoni, é um indicativo das lacunas na rede de atendimento, especialmente para casos que demandam intervenções de alta complexidade ou o tratamento de comorbidades comuns em populações mais idosas.

A figura de Raoni, um guerreiro incansável, mesmo em idade avançada e com a saúde fragilizada, serve como um lembrete da importância de se investir em políticas públicas que garantam não apenas a demarcação de terras, mas também um sistema de saúde robusto e culturalmente adequado para os povos originários. Sua vida e sua luta são um patrimônio, e o monitoramento de sua saúde é um termômetro da atenção que se dedica a essas pautas cruciais para o futuro do Brasil e do planeta.

Aguardando mais informações sobre a evolução de seu tratamento em São Paulo, o Capital Política continuará acompanhando de perto o estado de saúde do Cacique Raoni. Para se manter informado sobre este e outros temas relevantes do cenário político, social e ambiental, acompanhe nossas atualizações e aprofundamentos. Nosso compromisso é trazer informação de qualidade, contextualizada e relevante para você.

Fonte: https://g1.globo.com

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