O líder indígena Cacique Raoni Metuktire, figura de projeção mundial e incansável defensor da Amazônia e dos povos originários, foi diagnosticado com câncer no aparelho digestório aos 94 anos de idade. A notícia, divulgada nesta segunda-feira pelo Instituto Raoni, informa que o icônico cacique está recebendo cuidados paliativos em sua residência, na região de Peixoto de Azevedo, a 692 quilômetros de Cuiabá, no Mato Grosso. A complexidade do quadro de saúde e a avançada idade do líder motivaram a equipe médica a recomendar um tratamento focado no conforto e na qualidade de vida.
Diagnóstico e a Abordagem dos Cuidados Paliativos
Os exames confirmaram que Raoni enfrenta um adenocarcinoma pouco diferenciado, um tipo de câncer. Diante das condições clínicas, da longevidade do cacique e dos riscos inerentes a terapias mais agressivas, os profissionais de saúde optaram por uma abordagem paliativa. É fundamental compreender que cuidados paliativos não significam a ausência de tratamento ou abandono, mas sim um foco intensivo no manejo da dor, controle de outros sintomas, prevenção de complicações e, sobretudo, a manutenção da melhor qualidade de vida possível para o paciente, respeitando seus desejos e valores.
Atualmente, Raoni está cercado por sua família e sua comunidade, recebendo assistência domiciliar organizada pelo Instituto Raoni em parceria com serviços públicos de saúde e profissionais especializados. Este acompanhamento inclui suporte médico, de enfermagem, fisioterapia, além de atenção à alimentação e hidratação. Um aspecto crucial e profundamente respeitado no tratamento é a dimensão espiritual e cultural do cacique. Raoni, que também é pajé, continua a receber os cuidados e a presença de outros pajés de sua confiança, em alinhamento com a cultura Mẽbêngôkre, sua língua e suas referências espirituais.
Uma Trajetória de Luta e o Histórico Recente de Saúde
A figura de Raoni Metuktire transcende as fronteiras do Brasil. Como um dos mais reconhecidos líderes do povo Kaiapó, ele dedicou a vida à defesa da floresta amazônica e dos direitos indígenas, levando sua mensagem a palcos internacionais e dialogando com chefes de estado e figuras globais. Sua saúde, portanto, é acompanhada com preocupação não apenas por sua etnia, mas por todos os que enxergam nele um símbolo vivo da resistência e da causa ambientalista.
O diagnóstico de câncer é o ápice de uma série de desafios de saúde que Raoni tem enfrentado nos últimos anos. Recentemente, em junho, o cacique sofreu uma grave obstrução intestinal provocada pelo tumor, o que exigiu uma transferência de emergência para São Paulo. Lá, no Hospital São Paulo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ele foi submetido a uma gastroenteroanastomose, um procedimento cirúrgico destinado a restabelecer a passagem dos alimentos e melhorar suas condições de alimentação e conforto. Foi após essa intervenção que exames mais aprofundados confirmaram o diagnóstico de câncer.
O histórico de internações de Raoni é extenso. Em meados de junho, ele esteve na UTI do Hospital Dois Pinheiros, em Sinop (MT), devido a um mal-estar na aldeia, com suspeita de sepse. Antes disso, no mesmo hospital, havia sido internado por fortes dores abdominais relacionadas a uma hérnia antiga e, dias depois, por um quadro de pneumonia, permanecendo sete dias na UTI. O líder indígena possui múltiplas comorbidades, incluindo Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), cardiopatia com marcapasso implantado e insuficiência cardíaca, que exigiram cirurgia em 2022. Em 2020, o cacique também foi hospitalizado com complicações gastrointestinais e desidratação, e posteriormente com pneumonia, período em que enfrentou um quadro depressivo após o falecimento de sua esposa, Bekwyjkà Metuktire.
O Legado e a Relevância de Sua Existência
A saúde do Cacique Raoni transcende a esfera individual para tocar o cerne da luta indígena e ambiental no Brasil e no mundo. Ele representa a voz ancestral que clama pela preservação da floresta e pelo respeito aos povos que nela vivem, em um momento crucial de intensos debates sobre desenvolvimento, demarcação de terras e impactos climáticos. Sua condição atual reforça a urgência de olhar para a saúde dos povos originários, muitas vezes negligenciada, e para a continuidade das pautas que ele tão bravamente defendeu.
A presença de Raoni, mesmo aos 94 anos e sob cuidados paliativos, é um lembrete vivo da resiliência e da riqueza cultural dos povos indígenas. Seu legado não se encerra em seu estado de saúde, mas se solidifica a cada dia, inspirando novas gerações e movimentos. A atenção dedicada a ele, que envolve tanto a medicina ocidental quanto os saberes tradicionais, é um reflexo do respeito à sua história e ao que ele representa para o Brasil e para a humanidade.
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Fonte: https://g1.globo.com