Alfredo Stroessner, o ditador paraguaio que comandou seu país com mão de ferro por 35 anos, encontrou seu fim em Brasília, em 2006. Sua morte na capital brasileira encerrou um período de 17 anos de exílio, vivido de forma relativamente discreta na cidade, após ser deposto em um golpe militar em 1989. A estadia do ex-líder em solo brasileiro, amparada por asilo político, representa um capítulo final complexo de uma vida marcada por um regime autoritário que deixou um rastro de milhares de vítimas e violações sistemáticas de direitos humanos no Paraguai, período conhecido como “El Stronato”.
O 'Stronato': Três Décadas e Meia de Repressão
A ascensão de Alfredo Stroessner ao poder ocorreu em 4 de maio de 1954, por meio de um golpe de Estado. Na época, ele exercia o cargo de comandante-chefe das Forças Armadas do Paraguai. Seu regime, que se estenderia por mais de três décadas, foi um dos mais longos e repressivos da América Latina. O “El Stronato” foi caracterizado pela perseguição implacável a opositores políticos, pela censura à imprensa, pela supressão de liberdades individuais e por uma rede de repressão que resultou em prisões arbitrárias, torturas, desaparecimentos e mortes. O país se tornou um reduto de autoritarismo, com a população vivendo sob constante vigilância e medo.
A ditadura de Stroessner, além de ser um reflexo da Guerra Fria na região, alinhava-se a outros regimes militares do continente, notavelmente por sua participação na Operação Condor. Esta foi uma aliança secreta entre as ditaduras da América do Sul (Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai) para coordenar a repressão e eliminar opositores políticos, muitas vezes com sequestros e assassinatos transnacionais. O Paraguai, sob Stroessner, foi um participante ativo, colaborando na troca de informações e na perseguição de exilados.
A Queda e o Asilo no Brasil
O longo domínio de Stroessner chegou ao fim em 3 de fevereiro de 1989, quando foi deposto por um golpe militar liderado pelo general Andrés Rodríguez, seu ex-aliado e compadre. Diante da inevitabilidade da queda, Stroessner buscou asilo político no Brasil, que o concedeu sob a tradicional política brasileira de não intervenção em assuntos internos de outros países e acolhimento de exilados. Inicialmente, o ditador permaneceu por alguns meses em uma casa de praia em Guaratuba, no Paraná, e teve uma breve passagem por São Paulo antes de se mudar definitivamente para Brasília.
Na capital federal, Stroessner encontrou o que buscava: um refúgio de tranquilidade e anonimato, longe dos holofotes e das disputas políticas que deixara para trás. Ele estabeleceu residência em uma mansão à beira do Lago Paranoá, em áreas nobres do Lago Sul, primeiro na QI 9 e, posteriormente, na QL 12. Sua vida em Brasília durante esses 17 anos foi notavelmente discreta, um contraste gritante com o poder absoluto que exerceu no Paraguai. Ele evitava reuniões públicas e recebia pouquíssimas visitas, buscando manter-se invisível para a opinião pública e para a justiça paraguaia.
A rotina do ex-ditador consistia em passeios matinais, idas a igrejas da região e momentos de lazer no quintal de sua mansão, tomando sol. Embora houvesse rumores de que Stroessner gostava de assistir ao popular programa “Show da Xuxa”, sua ex-nora esclareceu, anos depois, que os verdadeiros telespectadores do programa eram, na verdade, seus seguranças, reforçando a imagem de um homem isolado e distante das nuances culturais do país que o abrigava.
Um Legado de Violência e Impunidade: Os Crimes do 'Stronato'
Enquanto Stroessner vivia seu exílio tranquilo no Brasil, o Paraguai tentava lidar com as cicatrizes profundas de seu regime. Os registros da Comissão da Verdade do Paraguai revelam a escala da brutalidade: mais de 120 mil pessoas foram vítimas de violações de direitos humanos. Deste total, 19.862 foram presas, 18.772 torturadas, e 236 crianças e adolescentes tiveram sua liberdade privada. Além da perseguição política, o ditador era conhecido por promover festas com menores de idade e foi acusado de estupro por várias vítimas, algumas das quais se manifestaram publicamente após sua queda para denunciar os abusos.
A dimensão dos crimes de Stroessner foi amplamente confirmada em 1992, com a descoberta do “Arquivo do Terror” por Martín Almada, ativista de direitos humanos e ele próprio uma vítima do “Stronato”. Este vasto conjunto de documentos detalhou a repressão e os crimes cometidos sob o regime, incluindo a participação do Paraguai na Operação Condor. A existência de um plano coordenado entre as ditaduras sul-americanas para perseguir e eliminar opositores ficou inequivocamente comprovada, mostrando a articulação do poder repressivo de Stroessner.
A busca pela verdade e pela justiça continuou. Em 2019, por exemplo, restos mortais e ossos foram encontrados em um imóvel abandonado desde o fim da ditadura, conhecido como “A casa de Stroessner” ou “A casa do horror”, em Ciudad del Este, reacendendo a memória dos desaparecidos. Stroessner também foi investigado por corrupção e, em 2002, a Justiça paraguaia emitiu mandados de prisão e pediu sua extradição. Contudo, o pedido não avançou devido à sua condição de asilado político no Brasil, uma barreira que impediu sua responsabilização em vida.
A Morte e a Disputa por Herança
Alfredo Stroessner faleceu aos 93 anos, em um hospital particular de Brasília, pesando apenas 45 quilos. Sua morte ocorreu devido a complicações após uma cirurgia, depois de quase um mês internado em Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Ele foi sepultado no cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul, com seu caixão coberto pelas bandeiras do Paraguai e do Partido Colorado, a sigla conservadora e nacionalista que sustentou seu regime ditatorial.
Mesmo após a morte do ditador, seu legado continuou a gerar controvérsia. O espólio de Alfredo Stroessner é alvo de uma disputa judicial que tramita na Justiça do Distrito Federal. Em um desdobramento significativo, um teste de DNA realizado em 2021 com o crânio e outras partes do corpo do ditador, exumadas para esse fim, comprovou o vínculo sanguíneo com Enrique Alfredo Fleitas. Agora, Fleitas busca localizar os bens do ex-presidente paraguaio para dar seguimento ao inventário e à divisão da herança, uma batalha legal que adiciona uma camada de complexidade à memória de um dos mais sombrios períodos da história sul-americana.
A história de Alfredo Stroessner, seu exílio em Brasília e a persistência de suas consequências na Justiça paraguaia e brasileira, demonstram a longa sombra que os regimes autoritários projetam sobre o presente. Para continuar acompanhando análises aprofundadas sobre política, história e temas relevantes que impactam a sociedade, explore as diversas reportagens e artigos do Capital Política. Nosso compromisso é com a informação de qualidade e a contextualização dos fatos, para que o leitor compreenda a fundo o cenário nacional e internacional.
Fonte: https://www.metropoles.com