São Paulo se despede de uma de suas figuras políticas mais longevas e influentes. Antônio Salim Curiati, ex-prefeito da capital paulista e deputado constituinte, faleceu nesta segunda-feira (13) aos 95 anos. A causa da morte não foi divulgada, mas seu passamento marca o fim de uma trajetória pública que se estendeu por mais de cinco décadas, atravessando períodos cruciais da história política brasileira, desde a ditadura militar até a redemocratização e a consolidação democrática. Sua vida foi um testemunho das transformações sociais e políticas que moldaram o Brasil contemporâneo.
A Trajetória de um Médico na Política
Nascido em Avaré, interior de São Paulo, em 1928, Antônio Salim Curiati construiu uma carreira multifacetada. Antes de se dedicar integralmente à política, ele se formou em medicina, atuando como médico sanitarista. Essa profissão, à época, o conectava diretamente às questões de saúde pública e bem-estar social, especialmente em um país que ainda enfrentava desafios estruturais significativos. Sua formação inicial moldou sua visão e pautou parte considerável de sua atuação legislativa, com foco em políticas públicas que pudessem melhorar a qualidade de vida da população.
Sua incursão na vida pública teve início na década de 1960. Em 1962, foi eleito deputado estadual por São Paulo, um cargo que ocuparia por cinco mandatos consecutivos. Nesse período, testemunhou e participou das intensas transformações políticas e sociais do país, adaptando-se aos cenários impostos pelo regime militar. Sua atuação no legislativo paulista o credenciou como uma voz experiente em diversas áreas, com destaque para a saúde, o saneamento básico e o desenvolvimento urbano, temas que sempre pautaram sua preocupação com a qualidade de vida nas cidades.
O Prefeito de São Paulo em Tempos Conturbados
Um dos pontos altos da carreira de Curiati foi sua breve, mas significativa, passagem pela prefeitura de São Paulo. Em 1982, ele foi nomeado prefeito da capital pelo então governador Paulo Maluf, assumindo o cargo em um momento de efervescência política e social no Brasil. É crucial contextualizar que, à época, os prefeitos das capitais brasileiras não eram eleitos diretamente pela população, mas sim indicados pelos governadores — uma particularidade do regime autoritário que ainda persistia, limitando a soberania popular nas grandes cidades.
Durante seu mandato, que durou pouco mais de um ano (1982-1983), Curiati enfrentou os desafios de administrar uma metrópole em constante crescimento, com demandas crescentes por infraestrutura, transporte e serviços públicos essenciais. Embora sua gestão tenha sido curta, ela se inseriu no período de transição democrática, marcando um dos últimos mandatos de prefeitos de capitais não eleitos diretamente, antes das primeiras eleições diretas para o cargo, que viriam a ocorrer em 1985, um passo fundamental para a redemocratização municipal.
A Contribuição para a Constituição Cidadã de 1988
Após a experiência na prefeitura, Antônio Salim Curiati consolidou sua influência no cenário nacional. Em 1986, foi eleito deputado federal, e seu mandato coincidiu com um dos momentos mais emblemáticos da história recente do Brasil: a Assembleia Nacional Constituinte (1987-1988). A participação de Curiati nesse processo foi fundamental, pois ele integrou o colegiado de parlamentares responsáveis por redigir a Carta Magna que viria a ser conhecida como a "Constituição Cidadã", um divisor de águas na história do país.
Sua experiência como legislador e, notadamente, como sanitarista, certamente contribuiu para os debates e a formulação de artigos relacionados à saúde, direitos sociais e organização federativa. A Constituição de 1988 representou um marco na redemocratização do país, estabelecendo as bases para a garantia de direitos civis, políticos e sociais de forma ampla. A presença de Curiati nesse processo o coloca como um dos construtores do arcabouço democrático que rege o Brasil até hoje, com impactos que se estendem por todas as esferas da vida nacional.
Legado e o Fim de Uma Era
A morte de Antônio Salim Curiati ressoa como o adeus a uma geração de políticos que navegou por diferentes regimes e ajudou a moldar a paisagem política brasileira. Seu legado não se restringe aos cargos que ocupou, mas também à sua capacidade de transitar por diversos contextos políticos, mantendo uma presença constante e relevante ao longo de mais de meio século. Ele representou uma fase da política onde a longevidade e a experiência eram características marcantes, construindo pontes entre diferentes épocas e ideologias.
A repercussão de seu falecimento, ainda que discreta em meio ao turbilhão de notícias atuais, é sentida nos círculos políticos de São Paulo e entre aqueles que acompanharam sua longa carreira. Ele deixa uma lacuna na memória política do estado, sendo lembrado como um personagem que testemunhou e participou ativamente das transformações que levaram o Brasil da ditadura à plena democracia. Sua vida pública é um capítulo importante para entender a evolução do poder em São Paulo e no Brasil, e seu nome permanecerá associado à construção da cidade e do país em que vivemos.
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Fonte: https://www.metropoles.com