O Distrito Federal lamenta a partida de uma de suas mais respeitadas e queridas figuras na área da saúde. O renomado pediatra Clóvis Roberto Puttini faleceu nesta sexta-feira (17/7), aos 72 anos, após um longo período de internação e uma batalha dedicada por sua saúde. Considerado uma referência na pediatria da capital federal, Dr. Clóvis estava hospitalizado há quase um ano no Hospital Brasília, onde recebia tratamento para complicações decorrentes de uma série de cirurgias intestinais. Sua ausência deixa uma lacuna significativa na comunidade médica e entre as inúmeras famílias que, ao longo de décadas, confiaram a ele o cuidado de seus filhos.
Uma vida dedicada à saúde infantil no Distrito Federal
Nascido em Minas Gerais, Clóvis Puttini chegou a Brasília ainda na infância, aos nove anos, acompanhando seus pais e os cinco irmãos. A capital, então em plena expansão, se tornaria o cenário de sua formação e de uma carreira que o consagraria. Em 1975, ingressou no curso de medicina da Universidade de Brasília (UnB), dando início a uma trajetória que o transformaria em um dos nomes mais conhecidos e respeitados na pediatria local. Sua escolha pela especialidade não foi por acaso, mas por uma profunda afinidade, como ele mesmo confidenciou em uma entrevista durante sua internação: “Fui me agraciando pela profissão e pelas crianças […]. É uma especialidade que exige muita precisão. Aí voltei para a pediatria generalista”. Essa visão combinava rigor técnico com uma sensibilidade notável.
Ao longo de sua extensa carreira, Dr. Clóvis atuou em áreas de alta complexidade como as unidades de terapia intensiva pediátrica e neonatal, essenciais para a sobrevida de recém-nascidos e crianças em estado crítico. Sua atuação foi marcante em diversos hospitais, tanto na rede pública, como o Hospital Universitário de Brasília (HUB) e o Hospital Regional de Taguatinga (HRT), quanto em instituições privadas, a exemplo do Hospital Anchieta. Essa vasta experiência demonstra o amplo alcance de seu compromisso com a saúde infantil do DF, moldando a assistência de milhares de famílias e inspirando gerações de profissionais que tiveram o privilégio de trabalhar ao seu lado.
Legado de competência e humanismo reconhecido
A notícia de seu falecimento gerou uma onda de pesar e homenagens. O Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal (CRM-DF) manifestou profundo lamento pela perda, destacando a notável trajetória construída ao longo de sua carreira. Em nota oficial, o conselho ressaltou: “Seu trabalho foi pautado pela competência técnica, pela sensibilidade no cuidado aos pacientes, pela atenção às famílias e pelo respeito aos colegas de profissão”. Esse reconhecimento sublinha a importância de Dr. Clóvis não apenas como um profissional exímio, mas também como um exemplo de ética e humanismo na prática médica. Ele deixa um grande legado familiar, composto por sua esposa, sete filhos, oito netos e duas enteadas, que agora carregam a memória de um homem que dedicou a vida a cuidar.
A luta pela vida e a força da fé
Os desafios de saúde que o levaram à internação tiveram início em 2023, quando foi diagnosticado com gastroenterocolite, perfuração intestinal e uma infecção grave. Esse quadro exigiu a retirada de parte do intestino grosso. Após um período de recuperação em casa, vivendo com ileostomia, Clóvis retornou ao hospital para realizar uma cirurgia de reversão. Contudo, o procedimento gerou complicações inesperadas, com o surgimento de fístulas, que o mantiveram internado desde então. Mesmo diante da severidade de sua condição, sua força interior e fé inabalável eram notáveis. Ele frequentemente mencionava que o maior desafio da internação era o tempo e as restrições, como a dieta líquida e a nutrição parenteral, mas fazia questão de ressaltar a excelência e o carinho da equipe médica e de enfermagem que o assistia.
Com uma profunda resiliência, Clóvis relembrava os momentos mais críticos: “Já estive em situações extremas, já estive no biquinho do urubu. Teve médico que falou ‘hoje ele vai’, e eu não fui. O plano de Deus está marcado e a gente não define quando”. Essa perspectiva demonstrava uma aceitação serena dos desígnios da vida, mesmo diante da fragilidade. Durante o longo período hospitalar, ele também enfrentou a dolorosa perda de um irmão mais velho, que faleceu no mesmo hospital em dezembro do ano passado, adicionando mais uma camada de luto aos seus próprios desafios.
Humanidade e afeto em tempos difíceis
Em meio à rotina hospitalar, momentos de humanidade e afeto se destacaram. Em fevereiro deste ano, a equipe do Hospital Brasília, em um gesto de empatia comovente, organizou uma saída especial para que Clóvis pudesse ir ao cinema, acompanhado por uma filha e uma enteada. O filme escolhido, “Tom e Jerry”, o transportou de volta às lembranças de quando levava seus próprios filhos para ver desenhos. “Um ano enfurnado no hospital sem ver o céu direito… Foi bom sair um pouco, me divertir. Se pudesse, faria todo mês”, comentou ele, revelando o impacto transformador desses breves reencontros com a normalidade.
Ele, que tinha predileção por filmes de aventura e ação, mas evitava cenas de violência gratuita, mencionava “Caminhando nas Nuvens” como um de seus favoritos, definindo-o como “muito bonitinho, um romance”. Essa saída para o cinema não foi o único ato de carinho; a equipe de saúde, atenta aos seus desejos, buscou constantemente proporcionar momentos de conforto e alegria. Dr. Clóvis, por sua vez, sempre falava com carinho dos seus “pacientinhos” e da intensidade da profissão. “São histórias maravilhosas, mas também com um pouco de sofrimento, porque a vida não é uma mágica. Nós somos mensageiros”, concluiu, em uma frase que encapsula a dualidade da vida e da medicina.
Um legado perene para a pediatria do DF
A partida de Clóvis Roberto Puttini é uma grande perda para a pediatria do Distrito Federal, mas seu legado permanecerá vivo. Ele será lembrado com carinho e admiração por seus familiares, amigos, colegas de profissão e, principalmente, pelas milhares de vidas de 'pacientinhos' que teve o privilégio de cuidar. Muitos deles, hoje adultos, guardam com gratidão a memória de um médico que os viu crescer. Sua história é um testemunho de uma vida dedicada à saúde e ao bem-estar das crianças, e seu exemplo de humanidade, competência e resiliência servirá de inspiração para as futuras gerações de médicos e profissionais da saúde em todo o país.
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Fonte: https://www.metropoles.com