Teerã foi palco, neste domingo (5/7), de uma cena que mistura luto, poder e mistério: o segundo dia do funeral público de Ali Khamenei, ex-Líder Supremo do Irã, morto em fevereiro por ataques atribuídos aos Estados Unidos e Israel. Milhares de iranianos, autoridades e líderes religiosos reuniram-se para prestar homenagens em um evento de proporções históricas e carregado de simbolismo político. No entanto, em meio aos ritos fúnebres e às demonstrações de fervor, a ausência de uma figura central lançou uma sombra de incerteza sobre a transição de poder na República Islâmica: Mojtaba Khamenei, o filho designado como sucessor, que não é visto em público desde que assumiu a liderança em março.
O silêncio do sucessor e a ascensão em sombras
Enquanto os irmãos Meysam, Masoud e Mostafa Khamenei apareceram visivelmente ao lado do caixão do pai durante a cerimônia religiosa no Grande Mosalla Imam Khomeini, um dos maiores complexos da capital iraniana, Mojtaba permaneceu longe dos olhos do público. Sua última aparição, ou melhor, sua completa invisibilidade, remonta a março, quando foi formalmente anunciado como o novo Líder Supremo. Fontes ligadas a autoridades norte-americanas, amplamente divulgadas na imprensa, sugerem que Mojtaba teria ficado ferido e desfigurado durante os bombardeios de 28 de fevereiro, que resultaram na morte de seu pai e de outros membros da família. Essa condição explicaria o seu afastamento, transformando sua ascensão ao mais alto posto do regime em um evento velado e cercado por especulações.
A discrição em torno do novo líder, embora compreensível em um contexto de convalescença, é profundamente incomum para um regime que utiliza a imagem e a presença pública de seus aiatolás como pilar de sua autoridade e legitimidade. A liderança suprema no Irã não é apenas uma função política, mas uma representação religiosa e espiritual, que exige visibilidade e conexão direta com a população. A falta de imagens oficiais ou aparições de Mojtaba levanta questionamentos sobre a real capacidade de ele exercer plenamente suas funções e a estabilidade de sua posição, potencialmente abrindo espaço para disputas internas ou fragilizando a percepção de coesão do regime em um momento crítico.
A despedida pública e os símbolos do poder
O funeral, no entanto, foi uma demonstração inequívoca da capacidade do regime de mobilizar as massas e exibir seu poderio. Imagens veiculadas pela televisão estatal iraniana mostraram Meysam, Masoud e Mostafa rezando ao lado dos caixões, em uma cerimônia solene que reuniu não apenas fiéis, mas também figuras proeminentes do governo, do parlamento e do judiciário, como o presidente Masoud Pezeshkian. A multidão, que lotou o Grande Mosalla Imam Khomeini, refletia o impacto da figura de Ali Khamenei, que comandou o país por décadas após a morte do Aiatolá Khomeini, moldando a política interna e externa da República Islâmica.
O esquema de segurança foi robusto, denotando a importância e a sensibilidade do evento, classificado como um dos maiores funerais da história recente do país. A presença massiva de pessoas, em um ato que transcende o luto para se tornar uma reafirmação de identidade nacional e religiosa, serve como um lembrete do profundo enraizamento do regime em parte da sociedade iraniana, mesmo diante das tensões e desafios internos e externos que o país enfrenta.
O grito político em meio ao luto
Longe de ser apenas um momento de recolhimento, o funeral de Ali Khamenei transformou-se em um palco para manifestações políticas contundentes. O poeta Mohammad Rasouli, responsável por conduzir parte da cerimônia, incitou a multidão a entoar gritos de “Morte aos EUA!” e “Morte a Israel!”, palavras de ordem que ecoaram pelo complexo religioso. Em um momento de forte retórica antiocidental, Rasouli chegou a questionar publicamente a vida do então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recebendo aplausos da plateia. Cartazes e pichações com mensagens semelhantes, pedindo a morte de Trump e do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, foram exibidos, evidenciando a profunda hostilidade e o desejo de retaliação que permeiam parte da sociedade iraniana e o próprio discurso oficial, especialmente após os ataques de fevereiro.
Essas manifestações não são meros desabafos, mas um reforço da ideologia anti-imperialista e anti-sionista que sustenta a República Islâmica. Elas demonstram a intenção do regime de manter a pressão sobre seus adversários externos, usando o luto de seu ex-líder como catalisador para solidificar o sentimento nacionalista e antiocidental, fundamental para a coesão interna diante das ameaças externas. A forma como o funeral foi conduzido, com a explícita politização do luto, envia uma mensagem clara sobre a postura do Irã no cenário geopolítico.
Um funeral fora do tempo: tradição e estratégia
Outro aspecto notável do funeral foi seu adiamento por mais de quatro meses, um fato incomum na tradição islâmica, que preconiza o sepultamento o mais breve possível, idealmente em até 24 horas após a morte. O governo iraniano justificou a demora pela eclosão de uma guerra logo após os ataques de 28 de fevereiro, que teria impossibilitado a realização das cerimônias. Durante esse período, o corpo de Ali Khamenei teria sido preservado sob refrigeração, uma medida considerada aceitável em situações de conflito armado, segundo as autoridades.
No entanto, a longa espera para um evento de tamanha magnitude sugere que o adiamento pode ter tido motivações mais complexas do que apenas o conflito. A morte de um Líder Supremo e a transição de poder são momentos delicados, que podem gerar instabilidade e disputa. É plausível que a demora tenha sido estratégica, permitindo que o novo líder, Mojtaba, se recuperasse, ou que as facções internas do regime tivessem tempo para consolidar posições e garantir uma transição suave, evitando qualquer sinal de fragilidade para o mundo exterior. A realização do funeral agora, mesmo com a ausência do sucessor, pode indicar que o regime se sente mais seguro para apresentar uma imagem de união e continuidade, apesar das feridas ainda abertas.
Implicações geopolíticas e o futuro incerto do Irã
A morte de Ali Khamenei e a ascensão enigmática de Mojtaba ocorrem em um momento de acentuada tensão regional e internacional. Os ataques de fevereiro, que resultaram na morte do ex-líder, intensificaram a já volátil relação do Irã com Estados Unidos e Israel. A ausência de Mojtaba no funeral de seu pai, combinada com os rumores sobre sua saúde, adiciona uma camada de incerteza à liderança iraniana. Como um líder que não pode se apresentar publicamente governará? Essa invisibilidade pode ser um sinal de fraqueza interna ou uma estratégia para proteger o novo aiatolá em um período de vulnerabilidade.
As manifestações antiocidentais no funeral reforçam a postura de confrontação do Irã. A retórica agressiva visa tanto o público interno, para manter a coesão e a fervor revolucionário, quanto o externo, enviando um sinal de que, apesar das perdas, o regime não recuará em sua política. O futuro do Irã, e consequentemente da estabilidade no Oriente Médio, dependerá em grande parte da forma como Mojtaba Khamenei conseguirá consolidar sua autoridade, superar seus desafios pessoais e projetar uma imagem de liderança forte e unificada. A complexidade do cenário exige uma leitura atenta, pois cada movimento em Teerã pode repercutir globalmente.
Este funeral, portanto, foi mais do que uma despedida; foi um complexo mosaico de luto, poder, mistério e desafio. O Capital Política continuará acompanhando os desdobramentos dessa intrincada transição, trazendo análises aprofundadas e informações contextualizadas para ajudar o leitor a compreender as implicações desses eventos para o Irã e o mundo. Continue conosco para se manter informado sobre este e outros temas relevantes.
Fonte: https://www.metropoles.com