O custo de vida no Distrito Federal apresenta desafios significativos para a população, e um dos mais pesados recai sobre o deslocamento diário. Um estudo recente da Universidade de Brasília (UnB) revela que as famílias do DF chegam a gastar, em média, R$ 260 por mês com passagens de ônibus. Esse valor representa uma parcela considerável do orçamento, equivalendo a 18,4% do salário mínimo atual, e coloca em evidência a necessidade urgente de repensar as políticas de mobilidade urbana na capital federal.
Ao longo de um ano, essa despesa pode atingir a marca de R$ 3.120, um montante que poderia ser destinado à compra de bens essenciais, à educação ou a outras necessidades básicas. Para ilustrar o impacto, o valor mensal gasto com transporte é suficiente para adquirir até oito cestas básicas econômicas ou cerca de 17 quilos de frango, itens fundamentais para a segurança alimentar das famílias.
A pesquisa da UnB e a dimensão do custo-benefício
A análise aprofundada foi conduzida por pesquisadores da UnB, vinculados ao Instituto de Ciência Política (IPOL), ao Grupo de Pesquisa Geopolítica e Urbanização Periférica (GeoUrb) e ao Núcleo Brasília do Observatório das Metrópoles. Sob a coordenação do professor Thiago Trindade, do Instituto de Ciência Política, o estudo destaca uma realidade incontestável: o deslocamento diário não é uma opção, mas uma exigência para a vasta maioria da população trabalhadora do Distrito Federal e de seu entorno.
Para chegar aos números reveladores, os pesquisadores cruzaram dados da Pesquisa Nacional de Mobilidade (Pemob 2024), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com informações de operadoras de transporte coletivo das 27 capitais brasileiras e suas respectivas regiões metropolitanas. A metodologia, que incluiu a multiplicação do número de passageiros pelos valores predominantes das tarifas até abril de 2026, buscou oferecer uma base robusta para futuras discussões sobre o tema.
Tarifa zero: mais que mobilidade, uma política de renda
A principal conclusão do estudo da UnB é contundente: a implementação da tarifa zero deve ser compreendida não apenas como uma política de mobilidade urbana, mas, fundamentalmente, como uma política de distribuição de renda. Essa perspectiva é reforçada pelos dados do Censo Demográfico de 2022 do IBGE, que indicam que o ônibus é o principal meio de transporte para 21,4% da população ocupada do país, o que representa cerca de 14,9 milhões de pessoas.
Para os pesquisadores, a cobrança de passagens funciona como uma espécie de 'imposto de circulação' para milhões de brasileiros que dependem diariamente do transporte público. A eliminação dessa cobrança aumentaria a renda disponível das famílias, mitigaria desigualdades sociais e econômicas, e potencialmente estimularia a economia local, liberando recursos para consumo em outros setores. Estimativas do estudo sugerem que a implementação integral da tarifa zero no Distrito Federal e na Região Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno (Ride-DF) teria o potencial de redistribuir cerca de R$ 2,78 bilhões por ano para a população local, injetando um significativo volume de recursos na economia regional.
Reação do governo local e propostas de financiamento
Diante do debate sobre o custo do transporte, a Secretaria de Transporte e Mobilidade do Distrito Federal (Semob) informou ao portal Metrópoles que um Grupo de Trabalho foi instituído para analisar e consolidar um estudo técnico sobre o custo real do Programa Vai de Graça, que já oferece gratuidade no transporte público aos domingos e feriados. O objetivo é contemplar aspectos orçamentários, financeiros, arrecadatórios e operacionais, com prazo de 180 dias para conclusão. A Semob também afirmou estar realizando um estudo minucioso para otimizar a gestão tarifária, com o intuito de manter a gratuidade existente e planejar sua ampliação, mostrando que o governo local está atento à demanda por um transporte mais acessível.
O estudo da UnB, por sua vez, não se limita a diagnosticar o problema, mas também propõe um modelo de financiamento robusto para a tarifa zero. A ideia central é uma reconfiguração do vale-transporte, que atualmente é pago parcialmente pelo trabalhador e pelo empregador, com o dinheiro sendo direcionado diretamente às empresas de transporte. A proposta sugere a criação de um fundo específico, com potencial de adoção em âmbito nacional, capaz de financiar a tarifa zero de forma sustentável.
Segundo o professor Thiago Trindade, se cada empregador depositasse uma taxa de R$ 250 por mês para esse fundo, seria possível financiar a tarifa zero em nível nacional. Um detalhe importante é que essa contribuição incidiria apenas sobre empresas a partir do décimo funcionário, buscando um equilíbrio para não onerar pequenas e médias empresas, mas garantir uma base de arrecadação sólida e equitativa.
O peso real da tarifa na renda das famílias do DF
Para entender a profundidade do impacto de R$ 260 mensais, é crucial observar os dados da Síntese de Indicadores Sociais 2024 do IBGE. No Distrito Federal, 40,8% da população vive com renda domiciliar per capita de até um salário mínimo (R$ 1.412). Mais especificamente, 16,3% sobrevivem com até meio salário mínimo por pessoa, enquanto 4,7% vivem com renda de até um quarto do salário mínimo per capita. Para essas parcelas da população, o gasto com transporte representa um sacrifício diário e significativo.
Os R$ 260 destinados a passagens pesam de forma desproporcional sobre os ombros de quem já possui uma renda limitada, dificultando o acesso a outros direitos básicos e comprometendo a qualidade de vida. Esse valor, que corresponde a 18,4% do salário mínimo, poderia ser utilizado para complementar a alimentação, adquirir medicamentos, pagar contas de consumo ou investir na educação dos filhos. A comparação com a cesta básica, que em Brasília custava R$ 712,06 em março deste ano (Conab/Dieese), demonstra a magnitude do que é subtraído do orçamento familiar para garantir o simples deslocamento.
A discussão sobre o custo do transporte público no DF, e no Brasil, transcende a questão da mobilidade, tornando-se um espelho das desigualdades sociais e econômicas. O estudo da UnB não apenas quantifica um problema, mas oferece um caminho para uma solução que pode transformar a vida de milhões de brasileiros. Para acompanhar os desdobramentos dessa importante discussão e entender como ela afeta seu dia a dia, continue acompanhando as análises e reportagens aprofundadas do Capital Política, seu portal de notícias comprometido com informação relevante e contextualizada.
Fonte: https://www.metropoles.com