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Justiça inglesa mantém condenação da BHP por tragédia de Mariana, reforçando precedente global

1 de 1 Imagem colorida de Mariana (MG) inundação - Foto: Corpo de Bombeiros/Divulgação

Em um desdobramento crucial para as vítimas do maior desastre socioambiental da história do Brasil, o Tribunal de Apelação da Inglaterra reiterou a responsabilização da mineradora BHP pelo colapso da barragem de Fundão, em Mariana (MG), ocorrido em 2015. A corte inglesa rejeitou um pedido da empresa para revisar a decisão anterior que já a considerava culpada pelo rompimento. Esta nova sentença não apenas mantém a pressão sobre uma das gigantes da mineração global, mas também reforça a esperança de justiça para centenas de milhares de pessoas afetadas, estabelecendo um precedente significativo para casos de responsabilidade corporativa transnacional.

O Caminho da Justiça Internacional para as Vítimas

A decisão do Tribunal de Apelação de Londres é um marco em uma longa e complexa batalha legal iniciada em terras estrangeiras. A ação em questão foi movida por um grupo de mais de 200 mil vítimas brasileiras – entre elas indivíduos, municípios, empresas e comunidades indígenas –, que buscam no Reino Unido a compensação por perdas e danos causados pela lama tóxica. A escolha da jurisdição inglesa se deu, em grande parte, pela percepção de maior celeridade e robustez jurídica em comparação ao lento e intrincado processo no Brasil.

O processo legal no Reino Unido teve um andamento conturbado, com idas e vindas que refletem a complexidade de litígios envolvendo multinacionais e desastres ambientais de tamanha magnitude. A permissão para que a ação prosseguisse foi concedida pela Alta Corte inglesa em 2022, um ano antes de a própria Corte de Apelação confirmar a decisão. A rejeição do recurso da BHP agora solidifica essa posição, mantendo a empresa sob a mira da justiça britânica e mais próxima de ter que arcar com as indenizações que podem ultrapassar bilhões de libras esterlinas.

Mariana: Uma Ferida Aberta na Alma Brasileira

A tragédia de Mariana, ocorrida em 5 de novembro de 2015, é um dos episódios mais dolorosos da história recente do Brasil. O rompimento da barragem de rejeitos de minério da Samarco – uma joint venture entre a Vale e a australiana BHP Billiton – liberou uma onda de lama que devastou o distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, e seguiu seu curso pelo Rio Doce, atingindo centenas de quilômetros e chegando ao Oceano Atlântico. Dezessete pessoas perderam a vida, e duas ainda estão desaparecidas. Vilas inteiras foram engolidas, famílias desabrigadas e uma rica biodiversidade foi irremediavelmente comprometida.

Para além das perdas humanas e materiais imediatas, o desastre deixou um legado de destruição ambiental e social que persiste até hoje. A bacia do Rio Doce, uma das mais importantes do Sudeste brasileiro, teve sua vida aquática dizimada, afetando a pesca, a agricultura e o acesso à água potável em diversas comunidades. A promessa de recuperação e reparação, embora em andamento por meio da Fundação Renova, criada para este fim, ainda é vista como insuficiente e morosa por muitos dos atingidos, que se sentem esquecidos e sem perspectivas concretas de reconstrução plena de suas vidas.

Implicações e Precedentes: O Futuro da Responsabilidade Corporativa

A manutenção da condenação da BHP em solo inglês tem repercussões que vão muito além do caso específico de Mariana. A decisão reforça a tese de que grandes corporações com operações globais não podem se eximir de responsabilidade pelos impactos de suas atividades apenas por operar através de subsidiárias em países em desenvolvimento. Ela sinaliza que os sistemas judiciais de países-sede, como o Reino Unido, estão cada vez mais dispostos a exercer sua jurisdição em casos de danos extraterritoriais, oferecendo uma nova via de busca por justiça para vítimas de tragédias semelhantes em todo o mundo.

Este precedente é um alerta para empresas multinacionais, que precisarão reavaliar suas práticas de governança, supervisão de subsidiárias e gestão de riscos ambientais e sociais. A expectativa é que a decisão impulsione uma maior accountability corporativa, forçando as empresas a adotar padrões mais rigorosos de segurança e sustentabilidade, independentemente da localização de suas operações. Para os advogados das vítimas, este é um passo crucial para garantir que a compensação seja justa e adequada, e que as empresas sejam de fato responsabilizadas pelos custos humanos e ambientais de suas operações.

O Cenário da Mineração no Brasil e a Busca por Accountability

A persistência de desastres como o de Mariana e, posteriormente, Brumadinho (em 2019), escancara os desafios da fiscalização e da regulamentação do setor de mineração no Brasil. Apesar das promessas de endurecimento das leis e dos processos de licenciamento, a memória das tragédias ainda ecoa, evidenciando a fragilidade das estruturas que deveriam proteger a população e o meio ambiente. A decisão inglesa, nesse contexto, serve como um espelho crítico para o sistema judiciário e regulatório brasileiro, apontando para a necessidade de maior agilidade, rigor e eficácia na resposta a esses crimes.

A busca por justiça para as vítimas de Mariana é um lembrete contundente de que a tragédia ainda não tem um ponto final. O processo no Reino Unido, longe de ser uma solução rápida, é mais uma etapa complexa na luta por reparação e na exigência de que as grandes empresas assumam plenamente as consequências de suas falhas. O Capital Política continuará acompanhando de perto os desdobramentos desse caso e outros temas cruciais que impactam a vida dos brasileiros. Acompanhe nosso portal para ter acesso a análises aprofundadas, notícias atualizadas e um olhar contextualizado sobre os fatos que moldam o cenário político e social do país e do mundo.

Fonte: https://www.metropoles.com

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