Brasília, 5 de novembro de 2026 – Em meio aos debates da conferência internacional “Mulheres que movem a justiça”, que se estende até esta sexta-feira na capital federal, um tema central emergiu com força: a imperatividade da articulação feminina em rede. Comunicadoras, juristas e ativistas convergiram na defesa de que o fortalecimento de laços de apoio entre mulheres não é apenas uma ferramenta, mas uma estratégia vital para desmantelar o machismo estrutural e pavimentar o caminho para uma maior e mais efetiva participação feminina nos múltiplos espaços de poder no Brasil. O evento, que busca promover uma justiça mais igualitária, serve de palco para reflexões profundas sobre os desafios e as soluções para a equidade de gênero.
A Força Histórica e a Oportunidade do Agora
Antonia Pellegrino, presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), trouxe para o centro da discussão, em uma mesa de debates, o poder transformador da união feminina, evocando o histórico “lobby do batom”. Essa aliança suprapartidária, formada por deputadas federais e senadoras durante a Assembleia Nacional Constituinte de 1987-1988, foi um marco na história política brasileira. Em um período de redemocratização e efervescência política, essas parlamentares se organizaram para assegurar direitos fundamentais para as mulheres na nova Constituição. “O resultado do que elas fizeram foi absolutamente extraordinário, porque boa parte dos direitos que nós temos até hoje foi garantido por essas poucas mulheres”, observou Pellegrino, conectando o passado vitorioso à necessidade de ação presente.
A relevância dessa articulação se intensifica diante de dados projetados para a próxima década. Pellegrino destacou a projeção de que pelo menos 40% dos cargos vitalícios no Judiciário – posições de alto impacto e estabilidade, como juízes, promotores e desembargadores – serão nomeados nos próximos dez anos. Essa janela de oportunidade representa um momento crucial para a inserção feminina em instâncias decisórias de grande peso. Se mulheres qualificadas e cientes das questões de gênero ocuparem esses espaços, o sistema de justiça pode ser progressivamente mais representativo e sensível às realidades femininas.
Redes: Antídoto Contra a Desinformação e Estratégia de Sobrevivência
A atuação em rede, segundo Pellegrino, transcende a mera colaboração; para as mulheres, é uma estratégia de sobrevivência forjada ao longo de séculos. Em um cenário onde a comunicação pública é frequentemente atacada por governos extremistas e grupos radicais orquestram campanhas de desinformação e mensagens misóginas, as redes femininas funcionam como um poderoso antídoto. Elas permitem a troca de informações verificadas, o apoio mútuo em face de ataques e a construção de narrativas contra-hegemônicas que desconstroem estereótipos e preconceitos. Profissionais da informação, em particular, têm o dever de combater ativamente a desinformação e a misoginia, utilizando suas plataformas para amplificar vozes e promover o pensamento crítico.
Sara Gabriela, advogada e influenciadora por trás da página “Seja a princesa que salva a si mesma”, corroborou a ideia de que o machismo deve ser reconhecido como um elemento cultural profundamente enraizado e, portanto, sistematicamente combatido. Para ela, embora o ordenamento jurídico brasileiro seja considerado avançado, com marcos como a Lei Maria da Penha e a previsão constitucional de igualdade de gênero, a efetividade de tais instrumentos depende de uma atuação objetiva e de informações concretas para atacar a misoginia em suas raízes. “Eu entendo que a informação não deve ser suavizada”, pontuou, defendendo uma abordagem direta e sem subterfúgios na educação sobre direitos e violências. O projeto de Sara, que nasceu em 2019 da sua experiência atendendo vítimas de violência em comunidades goianas, é um exemplo prático de como a comunicação pode ser uma ferramenta para gerar mudança cultural.
Descomplicando Direitos e Expondo Injustiças
A advogada e influenciadora Miriane Ferreira, com sua vasta audiência no Instagram, também trouxe a pauta da desmistificação jurídica para o centro do debate. Seus vídeos são uma ponte entre o complexo universo legal e o cotidiano feminino, visando empoderar mulheres a reconhecerem e reivindicarem seus direitos. Um dos pontos cruciais que ela aborda é a invisibilidade do trabalho doméstico e de cuidado familiar, que muitas vezes leva mulheres a abrirem mão de direitos patrimoniais significativos em casos de divórcio, por não terem exercido atividade profissional remunerada fora de casa. “As mulheres precisam dessa solidariedade umas das outras para mostrar o poder que têm. Nós mulheres somos muito desacreditadas”, enfatizou, ressaltando a importância do apoio mútuo para que cada uma reconheça o valor de seu trabalho, seja ele remunerado ou não.
A discussão avançou com a participação da advogada Mayra Cotta, produtora e criadora da série “Afiadas”, exibida na TV Brasil, que retrata o cotidiano de manicures em Brasília e suas conversas sobre política e maternidade. Cotta apontou um paradoxo alarmante: embora as mulheres estejam denunciando mais violações que sofrem, muitas delas acabam sendo “massacradas pelo Judiciário”. Esta dura constatação revela que, mesmo com a coragem de expor a violência, a falta de preparo e a parcialidade de alguns juízes podem resultar em revitimização, leniência com assediadores e abusadores, e a perpetuação da impunidade. Para ela, não basta apenas ter mais mulheres em cargos de poder; é fundamental que haja uma conscientização profunda e um compromisso real com o respeito e a seriedade na forma como as denúncias são recebidas e processadas.
Engajamento Político e o Poder do Voto Feminino
Complementando as perspectivas anteriores, a jornalista Thayse Xavier, fundadora da plataforma “Elas trabalham”, sublinhou a necessidade de estimular o engajamento político feminino como via para a ocupação de espaços de poder. Sua plataforma atua na conscientização sobre a importância do voto e da representatividade, promovendo o envolvimento de mulheres na política partidária e na defesa de suas pautas. A atuação da plataforma vai desde a divulgação de informações sobre candidatas até a mobilização para que as mulheres exerçam seu poder de voto de forma estratégica, escolhendo representantes alinhadas com as bandeiras de igualdade e justiça social.
O debate da conferência “Mulheres que movem a justiça” evidencia que a construção de uma sociedade mais igualitária é um processo multifacetado, que exige a atuação em diversas frentes: da comunicação à justiça, da política à vida cotidiana. A articulação em rede, historicamente uma ferramenta de sobrevivência, revela-se hoje como uma estratégia de empoderamento e transformação, capaz de dar voz a quem foi silenciada e de impulsionar a mudança cultural necessária para erradicar o machismo e garantir a plena participação feminina em todos os setores da vida pública e privada. A união feminina, com seu poder de mobilização e de resistência, é a chave para forjar um futuro mais justo e equitativo.
O Capital Política segue acompanhando de perto os desdobramentos desses debates e as iniciativas que buscam fortalecer a participação feminina. Continue conosco para se manter informado sobre as discussões que moldam o cenário político e social do país, com análises aprofundadas e conteúdo de qualidade que traduzem a relevância de cada tema para você, leitor.