Para grande parte dos brasileiros hoje, ir às urnas e escolher o presidente da República é um direito natural, exercido a cada quatro anos com a comodidade da urna eletrônica ou do título digital. Contudo, essa liberdade democrática é uma conquista recente na história do país, resultado de uma longa luta pela redemocratização. Em Mato Grosso, assim como em todo o Brasil, eleitores que vivenciaram os 21 anos da ditadura militar (1964-1985) lembram-se vividamente de um tempo em que o voto direto para o chefe do Executivo era um privilégio negado, uma realidade que os levou a votar pela primeira vez para presidente apenas depois dos 27 anos, ou até mais tarde, como um marco em suas trajetórias.
Marco Assumpção, Maria de Fátima Rodrigues e Edson Spenthof compartilham essa experiência transformadora. Para eles, a participação nas eleições não é apenas um direito, mas um dever cívico forjado na escassez de liberdades políticas. Em um estado como Mato Grosso, que atualmente conta com aproximadamente 2,6 milhões de eleitores aptos, a perspectiva desses cidadãos é um lembrete contundente da importância de cada voto e do valor inestimável da democracia.
Uma lacuna de 21 anos: a ditadura e a suspensão do voto direto
A ditadura militar, instaurada em abril de 1964, silenciou as vozes da sociedade brasileira de diversas formas. Entre as mais significativas estava a suspensão do voto direto para presidente da República. Durante mais de duas décadas, a escolha do mandatário máximo do país era feita de forma indireta, por um Colégio Eleitoral composto por membros do Congresso Nacional e delegados das assembleias legislativas estaduais, todos sob forte influência e controle do regime. Essa estrutura esvaziava a participação popular e consolidava o poder nas mãos dos militares, cerceando a capacidade dos cidadãos de moldar o próprio destino político.
O período foi marcado pela censura, pela repressão a movimentos sociais e pela perseguição a opositores políticos. A população brasileira, especialmente as gerações mais jovens que cresceram sob o regime, foi privada da experiência fundamental de eleger diretamente seus governantes. O conceito de eleições diretas, onde os próprios cidadãos escolhem seus representantes por meio do voto individual e secreto, tornou-se uma aspiração distante, mas jamais esquecida.
A luta pela redemocratização e as 'Diretas Já'
A sede por liberdade e o retorno à democracia culminaram na década de 1980 com um dos maiores movimentos populares da história brasileira: a campanha das “Diretas Já”. Milhões de pessoas em todo o país foram às ruas, exigindo o direito de votar diretamente para presidente. Embora a emenda constitucional que propunha o restabelecimento do voto direto não tenha sido aprovada pelo Congresso Nacional em 1984, a mobilização popular foi um divisor de águas, pressionando o regime e abrindo caminho para o fim da ditadura. A primeira eleição presidencial direta após o regime militar só ocorreria em 1989, tornando-se um momento histórico e emocionalmente carregado para milhões de brasileiros, muitos dos quais, como os mato-grossenses aqui destacados, puderam exercer esse direito pela primeira vez já na vida adulta.
Vozes de Mato Grosso: a experiência de quem viveu a censura
A cineasta e pesquisadora Maria de Fátima Rodrigues, hoje com 71 anos, foi uma dessas pessoas. Ela votou para presidente pela primeira vez aos 35 anos, em 1989. Sua trajetória se cruza com a de muitas mulheres que, por décadas, tiveram suas escolhas políticas influenciadas e até mesmo determinadas por maridos e figuras masculinas em uma sociedade profundamente patriarcal. Migrando de São Paulo para a região do Araguaia, em Mato Grosso, na década de 1970, um período de pouca informação e forte presença de governadores nomeados, Maria de Fátima percebeu a fragilidade da participação feminina. “No passado, a gente era induzida pelo marido. O marido é quem tinha o voto, o plano de tal, e a gente apenas seguia o que ele falava. A estrutura patriarcal dominou por muito tempo”, relata. Contudo, ela se articulou com outras mulheres em ações comunitárias e, em 1981, de forma pioneira, tornou-se a primeira candidata a vereadora do então recém-criado município de Água Boa, um ato de resistência e afirmação feminina em um contexto adverso.
Para Marco Assumpção, médico-veterinário de 70 anos, seu primeiro voto direto para presidente veio aos 33. Ele enfatiza que a abstenção não é a resposta para os problemas sociais e políticos. “O ato de votar é o mais importante de todos, é o nosso futuro. Anular o voto é a pior coisa que se pode fazer. Eu tenho 70 anos e vou votar até quando puder, sem cabresto e pensando numa sociedade melhor”, afirma Marco, cujo compromisso com as urnas reflete a consciência de quem sabe o preço da não participação.
Edson Spenthof, jornalista e professor de 64 anos, também reitera a importância do voto, mas com uma perspectiva ampliada. “Ainda voto e vou fazer isso até perder a lucidez. Ao contrário do que diz o senso comum, o voto não é a política, pois política se faz todos os dias. Mas se, por um lado, a democracia não se resume ao direito do voto, por outro, sem direito a voto simplesmente não há democracia e não há direitos fundamentais”, pontua. Sua fala sublinha que, embora o voto seja o alicerce, a democracia exige vigilância e participação contínua da sociedade em seus mais diversos âmbitos.
O legado do voto e o compromisso democrático
As histórias de Maria de Fátima, Marco e Edson são mais do que meros relatos pessoais; são testemunhos vivos da resiliência democrática brasileira. Elas ressaltam que o direito ao voto, hoje tão acessível, foi duramente conquistado. Para as gerações que cresceram com a democracia como norma, a experiência desses eleitores de Mato Grosso serve como um alerta e um chamado à consciência. A participação política ativa, seja nas urnas ou no engajamento diário, é a garantia de que as liberdades democráticas não serão novamente cerceadas. Mesmo para aqueles com mais de 70 anos, para quem o voto é facultativo, a decisão de ir às urnas demonstra um profundo respeito pela história e pelo futuro do país, reafirmando que a escolha dos governantes é um pilar insubstituível da cidadania.
A memória da ditadura e a luta pela redemocratização nos lembram que a democracia é um valor a ser constantemente cultivado e defendido. As vozes desses mato-grossenses ecoam a importância de cada voto, cada escolha e cada ato de participação na construção de um Brasil mais justo e livre. Para continuar acompanhando análises aprofundadas sobre política e sociedade, com informação relevante e contextualizada que impacta o seu dia a dia, siga o Capital Política e mantenha-se informado sobre os temas que moldam o futuro do nosso país.
Fonte: https://g1.globo.com