Para a grande maioria dos moradores de Mato Grosso, a experiência de ir ao cinema transcende o simples lazer de fim de semana, transformando-se frequentemente em uma pequena jornada. Um levantamento recente revela uma realidade contundente: apenas 15 dos 142 municípios do estado, o que equivale a cerca de 10,5% do total, contam com salas de exibição. Isso significa que, para os residentes de 127 cidades mato-grossenses, assistir a um filme na tela grande requer deslocamento e planejamento, evidenciando um desafio significativo de acesso à cultura e entretenimento.
A concentração desses espaços comerciais é notável, com a maioria localizada na Baixada Cuiabana e em importantes polos regionais como Rondonópolis, Sinop, Tangará da Serra, Sorriso e Barra do Garças. Para quem vive fora desses eixos, o glamour da sétima arte se mistura à logística de viagens, custos adicionais e a ausência de uma opção de lazer cultural que, em grandes centros, é tida como rotina.
Memórias de uma tela distante: O percurso de Ana de Jesus
A necessidade de se locomover em busca do cinema não é novidade para muitos mato-grossenses, e a história de Ana de Jesus, uma professora aposentada de 66 anos, ilustra essa realidade com vivacidade. A relação de Ana com o cinema começou na infância, ainda no Paraná, onde vivia em uma comunidade rural. Naquela época, as sessões de cinema eram eventos itinerantes, raros e sempre montados em espaços improvisados. Cada exibição era um acontecimento, um espetáculo que quebrava a monotonia da vida no campo.
“Para nós, aquilo ali era muito, era a diversão do ano, um acontecimento que a gente não estava acostumado a ter”, relembra Ana, destacando o impacto cultural e social que essas raras sessões tinham em sua comunidade. A emoção e a expectativa em torno de um filme marcavam a memória, criando um elo afetivo com a arte cinematográfica que perduraria por toda a vida.
Em julho de 1974, Ana de Jesus trocou o Paraná por Pontes e Lacerda, em Mato Grosso. Lá, a busca pelo cinema continuou. Para experienciar uma sala ampla com tela grande pela primeira vez, ela chegou a viajar cerca de 483 quilômetros até Cuiabá. Outras viagens a cidades como Cáceres também fizeram parte de sua jornada em busca das produções que chegavam às grandes telas, sublinhando o esforço e a dedicação necessários para simplesmente assistir a um filme.
A raiz do problema: Custos e políticas públicas
A escassez de salas de cinema em grande parte do estado não é um fenômeno isolado. Diego Baraldi, professor do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), aponta que a concentração está intrinsecamente ligada aos altos custos de manutenção de uma estrutura comercial de exibição. Montar e operar um cinema exige investimentos significativos em espaço, equipamentos de projeção e sistema de som, além da dificuldade de sustentar o negócio apenas com a receita dos ingressos em cidades com menor densidade populacional.
Baraldi enfatiza que Mato Grosso reflete uma realidade nacional preocupante. “No Brasil, menos de 10% dos municípios têm salas de cinema comerciais ativas, e Mato Grosso reflete com exatidão esse abismo”, afirma. Para o professor, a situação extrapola a esfera do entretenimento e toca diretamente em questões de direito fundamental. “O acesso à cultura e à arte é um direito assegurado pela Constituição Federal. Quando mais de 89% dos municípios do nosso estado ficam sem uma única tela, temos um problema sério de política pública e de desigualdade de acesso aos bens culturais.”
Para além do ingresso: O custo real do cinema
A falta de cinemas próximos é apenas uma parte da equação. Para quem precisa viajar, o custo da sessão se soma a uma série de outras despesas que tornam o acesso ao cinema ainda mais elitizado. Gastos com combustível ou passagens de transporte, alimentação durante a viagem e na cidade de destino, além da própria entrada, pesam consideravelmente no orçamento familiar. O que seria um lazer acessível para muitos, torna-se um luxo para os que precisam cruzar longas distâncias.
A distribuição das salas e os preços dos ingressos em Mato Grosso variam amplamente. A Baixada Cuiabana lidera com folga na oferta, abrigando quatro grandes complexos em Cuiabá (Cinépolis, Cineflix, Multiplex Cine Araújo e Cine Laser) e uma unidade do Cineflix em Várzea Grande, somando mais de 20 salas. Na capital, os preços dos ingressos podem variar entre R$ 28 (promoções) e R$ 60, dependendo do cinema, dia e formato da sessão (2D, 3D, salas especiais).
No interior, as opções estão concentradas nos polos regionais. Rondonópolis conta com o Cine Vip, com ingressos variando entre R$ 12 e R$ 22. Sinop oferece o Moviecom (R$ 22 a R$ 32) e o Cine Center Machado (R$ 32 a R$ 44). Outras cidades como Sorriso, Tangará da Serra, Barra do Garças, Cáceres, Lucas do Rio Verde, Pontes e Lacerda, Primavera do Leste, Campo Verde, Alta Floresta, Nova Mutum e Guarantã do Norte também possuem salas comerciais, com valores que geralmente oscilam entre R$ 27 e R$ 44. Essa diversidade de preços, embora esperada, não diminui o impacto do custo total quando a viagem é parte integrante da experiência.
Um desafio persistente para o desenvolvimento cultural
A exclusão de uma parcela tão grande da população mato-grossense do acesso regular ao cinema comercial tem implicações que vão além da simples ausência de entretenimento. Afeta a formação cultural, a capacidade de desfrutar de expressões artísticas e a vitalidade social das comunidades. Embora o mapeamento se concentre apenas em salas do circuito comercial tradicional, excluindo cineclubes e projetos independentes — iniciativas que frequentemente suprem a lacuna cultural, mas não substituem a infraestrutura de um complexo comercial —, a lacuna permanece evidente.
A realidade de Mato Grosso expõe a complexidade de garantir o acesso universal à cultura em um país de dimensões continentais e desigualdades regionais. O cinema, como manifestação artística e espaço de socialização, deveria ser um direito acessível, não um privilégio condicionado à capacidade de deslocamento ou ao poder aquisitivo. A discussão sobre a descentralização cultural e o fomento a espaços de exibição em cidades menores torna-se, assim, uma pauta urgente para o desenvolvimento social e cultural do estado.
Acompanhar a evolução dessa pauta e entender como políticas públicas podem mitigar essa disparidade é fundamental. O Capital Política continua comprometido em trazer as informações mais relevantes e aprofundadas sobre os temas que impactam a vida dos mato-grossenses e do Brasil. Continue conosco para se manter bem informado sobre esta e outras discussões cruciais para o nosso cenário social e cultural.
Fonte: https://g1.globo.com