Em um movimento que redefine a representação cartográfica global, a Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) aprovou, no último dia 4 de setembro de 2026, uma resolução histórica para a adoção de um novo mapa-múndi. A iniciativa busca corrigir distorções centenárias, apresentando de forma mais justa as dimensões reais da África, América Latina e Sul da Ásia – regiões tradicionalmente subrepresentadas na cartografia hegemônica. Liderada pelo Togo e com forte apoio da União Africana, a decisão reflete uma crescente demanda por 'justiça cognitiva' e uma visão de mundo mais equitativa.
A aprovação, que contou com 164 votos favoráveis, simboliza mais do que uma mera mudança geográfica; ela representa um passo crucial na desconstrução de paradigmas que moldaram a percepção global por séculos. Enquanto a maioria dos países endossou a proposta, os Estados Unidos se opuseram, e nações como Estônia, Geórgia, Lituânia, Moldávia, Sérvia e Ucrânia optaram pela abstenção. Essa votação não apenas atualiza a ferramenta visual que usamos para entender o planeta, mas também provoca uma reflexão profunda sobre como a cartografia pode perpetuar ou desafiar narrativas de poder e importância.
O Legado Distorcivo da Projeção de Mercator
Por quase cinco séculos, a projeção de Mercator dominou os atlas e mapas escolares ao redor do mundo. Criada no século XVI pelo cartógrafo Gerardus Mercator, essa projeção foi revolucionária para a navegação marítima. Sua principal virtude era a capacidade de representar ângulos e direções de forma constante, facilitando as rotas dos exploradores. Contudo, essa utilidade vinha com um alto custo em termos de precisão das áreas, especialmente para terras distantes do Equador.
A grande crítica à projeção de Mercator reside em sua intrínseca distorção: ela amplia desproporcionalmente as massas de terra situadas mais ao norte e ao sul da linha do Equador, ao mesmo tempo em que reduz a representação de continentes como a África, a América Latina e o sul da Ásia. Um dos exemplos mais citados é a comparação entre a África e a Groenlândia. No mapa de Mercator, ambos parecem ter tamanhos semelhantes, quando, na realidade, a África é aproximadamente 14 vezes maior que a ilha nórdica. Essa representação errônea não é um mero detalhe técnico; ela teve e ainda tem um impacto significativo na percepção coletiva sobre a importância e a grandiosidade desses continentes.
A Luta pela "Justiça Cognitiva" e a Reparação Histórica
O cerne da resolução aprovada pela ONU transcende a exatidão métrica. O texto enfatiza a necessidade de uma 'justiça cognitiva e reparação memorial', termo cunhado para descrever a correção de injustiças históricas e preconceitos enraizados na forma como o conhecimento é construído e compartilhado. Robert Dussey, ministro das Relações Exteriores do Togo, país que encabeçou a proposta, resumiu a questão de forma contundente: 'Mapas moldam nossa compreensão do mundo'. Essa frase encapsula a crença de que a maneira como visualizamos o planeta influencia nossa percepção sobre o peso político, econômico e cultural de cada região.
A oposição dos Estados Unidos à resolução e as abstenções de algumas nações europeias e do leste europeu não são acidentais. A projeção de Mercator, embora tecnicamente superada para uso geral, tornou-se um símbolo da hegemonia eurocêntrica e ocidental. Para muitos, a correção de um mapa que minimiza o 'Sul global' é vista como uma tentativa de reequilibrar narrativas, desafiando uma ordem que historicamente posicionou as nações do Norte como centro e medida de todas as coisas. A mudança é, portanto, um ato político e cultural com profundas implicações na educação, diplomacia e na própria identidade global.
Um Novo Olhar para o Mundo: A Projeção da Terra Igual
A resolução incentiva governos, instituições de ensino, organizações internacionais e empresas de tecnologia a adotarem uma nova perspectiva cartográfica, com destaque para a Projeção da Terra Igual (também conhecida como Gall-Peters ou equivalente). Ao contrário de Mercator, que preserva os ângulos, essa projeção se dedica a manter as áreas proporcionais. Embora reconheça que nenhuma projeção bidimensional pode reproduzir perfeitamente a superfície curva e tridimensional da Terra, a Projeção da Terra Igual oferece uma alternativa que prioriza a fidelidade das dimensões territoriais, proporcionando uma representação visual mais precisa e menos eurocêntrica.
Implicações Culturais e Educacionais
A transição para um novo mapa-múndi com dimensões mais equitativas tem o potencial de revolucionar a educação geográfica e a percepção pública. Desde cedo, estudantes de todo o mundo são expostos a mapas que podem inadvertidamente distorcer sua compreensão sobre o tamanho relativo e, por extensão, a importância de diferentes regiões. Com a adoção de projeções mais justas, espera-se que uma nova geração desenvolva uma visão de mundo menos enviesada, mais consciente da vasta extensão e diversidade dos continentes africano, latino-americano e asiático, fomentando um senso de interconexão global mais equilibrado e respeitoso.
A Discussão no Brasil: Cartografia como Convenção e suas Consequências
No contexto brasileiro, a discussão sobre a relatividade dos mapas não é nova. No ano anterior à decisão da ONU, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) lançou um mapa-múndi 'invertido', que colocava o Brasil no centro e o Sul no topo da imagem. Essa iniciativa ousada tinha como objetivo principal ressaltar que a orientação dos pontos cardeais em um mapa – com o Norte sempre 'para cima' – é, em última instância, uma convenção cartográfica, e não uma lei natural imutável. Ao desafiar essa norma, o IBGE buscou provocar uma reflexão sobre como as convenções podem influenciar nossa percepção.
Conforme explicou Maria do Carmo Dias Bueno, diretora de Geociências do IBGE, a convenção norte-sul não está isenta de vieses. 'Temos um viés sutil em que algumas pessoas, ao verem um mapa, com o Norte apontado para cima, atribuem questões boas e valores mais ricos a coisas que estão localizadas na parte superior do mapa. E, ao mesmo tempo, atribuem coisas ruins, valores mais baixos de imóveis, e pobreza, a coisas relacionadas no mapa na porção inferior, ou seja, na porção sul do mapa', detalhou em vídeo. Essa análise sublinha como representações aparentemente neutras podem carregar e reforçar preconceitos sociais e econômicos, reverberando em diversas esferas da vida, desde o mercado imobiliário até a percepção de desenvolvimento entre regiões.
A decisão da ONU de endossar um novo mapa-múndi é um lembrete potente de que os mapas são mais do que meras ferramentas de navegação; são poderosas narrativas visuais que moldam nossa compreensão do mundo e de nosso lugar nele. Ao corrigir distorções históricas, a comunidade internacional dá um passo adiante na busca por uma representação mais justa e equitativa, convidando a uma reavaliação de antigas certezas. Para continuar acompanhando os desdobramentos dessa e de outras notícias que impactam nossa sociedade global, com análises aprofundadas e conteúdo de qualidade, siga o Capital Política e mantenha-se informado.
Fonte: https://www.metropoles.com