Cuiabá, conhecida por seu clima naturalmente quente, tem sentido nos últimos anos um agravamento das altas temperaturas, um fenômeno que vai além das variações sazonais. Longe de ser apenas uma percepção, a realidade é sustentada por dados alarmantes. Um estudo do Instituto Centro de Vida (ICV) revela que a capital mato-grossense perdeu uma parcela significativa de sua vegetação nativa, uma devastação impulsionada pela expansão urbana desordenada e por grandes projetos de infraestrutura, incluindo as obras inconclusivas do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT).
O Calor que Vem da Perda de Verde: Diagnóstico e Números
A análise do ICV, publicada em 2019, apontou que, entre 1988 e 2017, Cuiabá perdeu impressionantes 55.763 hectares de vegetação nativa, o equivalente a 17% de sua cobertura florestal total. Para dar uma dimensão, essa área desmatada corresponde a cerca de 2,5 vezes a extensão da atual zona urbana da capital, evidenciando uma transformação paisagística em larga escala. Um levantamento mais recente, focado especificamente na área urbana, mostra que a situação se deteriorou ainda mais, com a perda de 7.211 hectares de vegetação nativa entre 1985 e 2024. Isso significa que, em apenas quatro décadas, a cidade viu desaparecer 52% das áreas verdes dentro de seus limites urbanos, um ritmo que acende um alerta sobre a sustentabilidade do desenvolvimento local.
A ligação entre essa perda de vegetação e o aumento da sensação térmica é direta e cientificamente comprovada. A professora Flávia Maria de Moura Santos, do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), explica que, em cidades de clima quente como Cuiabá, a retirada de árvores agrava substancialmente o calor e, consequentemente, reduz a qualidade de vida dos moradores. A vegetação desempenha um papel crucial na regulação térmica, não apenas pelo sombreamento direto que oferece, mas também pela evapotranspiração, um processo biológico no qual as plantas liberam umidade para a atmosfera, ajudando a refrescar o ambiente e a diminuir o tempo seco.
As Raízes do Problema: Expansão Urbana e Grandes Obras
O coordenador do Núcleo de Inteligência Territorial do ICV, Vinícius Silgueiro, reforça que a intensificação da perda de vegetação nas últimas décadas está intrinsicamente ligada à rápida expansão urbana de Cuiabá e à execução de grandes projetos de infraestrutura. A necessidade de novos loteamentos para atender ao crescimento populacional e a implantação de vias como a Avenida Professora Edna Affi, popularmente conhecida como Avenida das Torres, impulsionaram a supressão de vastas áreas verdes, modificando radicalmente a paisagem e o microclima da cidade.
O Legado do VLT e a Questão das Compensações
Um capítulo emblemático dessa história de desmatamento é o projeto do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), concebido para a Copa do Mundo de 2014, mas que nunca foi concluído. Para a implantação do modal, cerca de 2.500 árvores foram retiradas ao longo do trajeto previsto em Cuiabá e Várzea Grande. O abandono do projeto do VLT e a posterior substituição pelo Ônibus de Trânsito Rápido (BRT) deixaram um passivo ambiental significativo. Embora a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema-MT) afirme que o licenciamento ambiental previa a compensação florestal com replantio durante a implantação do parque linear, a realidade é mais complexa. O Horto Florestal de Cuiabá, por exemplo, não registra o recebimento de árvores doadas pelo Consórcio VLT após as remoções de 2014, levantando dúvidas sobre a efetividade das medidas compensatórias prometidas e a fiscalização de seu cumprimento.
O Impacto do Concreto e Asfalto: Ilhas de Calor Urbanas
A substituição de áreas verdes por superfícies impermeáveis como asfalto e concreto não apenas retira os benefícios térmicos da vegetação, mas também agrava o problema ao criar as chamadas 'ilhas de calor urbanas'. A professora Flávia Maria de Moura Santos explica que esses materiais têm alta capacidade de absorver e armazenar calor durante o dia, devolvendo-o lentamente para a atmosfera ao longo da noite, elevando as temperaturas do entorno. Esse efeito é intensificado pelo aumento da circulação de veículos, que emitem calor e poluentes, formando um ciclo vicioso de aquecimento. Lugares com maior concentração de concreto e asfalto tendem a registrar temperaturas perceptivelmente mais altas do que áreas vizinhas com maior cobertura vegetal, impactando diretamente o conforto térmico e a saúde da população.
Cuiabá em Alerta: Qualidade de Vida e Desafios Futuros
As consequências do desmatamento e da urbanização não planejada vão além do desconforto térmico. A perda de áreas verdes afeta a biodiversidade, a qualidade do ar, a permeabilidade do solo (aumentando o risco de enchentes) e, em última instância, a saúde pública, com o aumento de doenças relacionadas ao calor e à poluição. A situação de Cuiabá serve como um microcosmo dos desafios ambientais enfrentados por muitas cidades brasileiras em crescimento, onde o avanço imobiliário e a infraestrutura muitas vezes se sobrepõem à sustentabilidade ambiental. É um lembrete contundente de que o desenvolvimento urbano deve ser harmonizado com a preservação dos ecossistemas, garantindo um futuro mais equilibrado e saudável para seus habitantes.
A conscientização sobre os impactos dessa transformação e a pressão por políticas públicas mais eficazes em planejamento urbano e gestão ambiental são cruciais para reverter esse cenário. O debate sobre como conciliar o crescimento da cidade com a conservação de seu patrimônio natural continua sendo uma pauta urgente. Para acompanhar de perto esses e outros temas que moldam o dia a dia e o futuro de nossa região e do país, continue lendo o Capital Política. Nosso compromisso é trazer informação relevante, aprofundada e contextualizada, para que você esteja sempre bem informado e possa formar sua própria opinião sobre os grandes desafios de nosso tempo.
Fonte: https://g1.globo.com