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onça-parda ‘guaraná’ retorna à natureza em mato grosso após nove meses de recuperação e monitoramento

Em um desfecho que celebra a resiliência da vida selvagem e a dedicação à conservação, uma onça-parda macho, carinhosamente batizada de Guaraná, foi reintegrada ao seu habitat natural na Reserva São Francisco do Perigara, em Barão de Melgaço, a 121 km de Cuiabá. O retorno à liberdade ocorre após um intensivo período de nove meses […]

G1

Em um desfecho que celebra a resiliência da vida selvagem e a dedicação à conservação, uma onça-parda macho, carinhosamente batizada de Guaraná, foi reintegrada ao seu habitat natural na Reserva São Francisco do Perigara, em Barão de Melgaço, a 121 km de Cuiabá. O retorno à liberdade ocorre após um intensivo período de nove meses de recuperação e tratamento, que começou quando o felino foi encontrado gravemente debilitado no fim do ano passado. Sua história, de uma luta pela sobrevivência à volta para a natureza, ilustra os desafios e os triunfos das iniciativas de proteção da fauna brasileira.

O resgate e a complexa jornada de recuperação

Guaraná foi descoberto em condições alarmantes durante uma rotina de monitoramento na região. Segundo Marcos Lages, veterinário e coordenador da base do projeto Onçafari na reserva, o animal apresentava um quadro severo de debilitação: desidratado, desnutrido, apático e com dentes quebrados. Esse cenário inicial demandou uma intervenção imediata e coordenada, envolvendo diferentes instituições e especialistas.

Após o resgate, a onça-parda foi prontamente encaminhada à Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Mato Grosso (Sema-MT), em Cuiabá, onde recebeu os primeiros socorros e passou por uma série de exames diagnósticos. A etapa seguinte crucial foi sua transferência para o Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (CRAS), em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Nesse centro especializado, Guaraná permaneceu sob cuidados intensivos, com uma equipe multidisciplinar trabalhando em sua recuperação física e comportamental.

Marcos Lages destaca a complexidade do processo: "Ele estava muito debilitado. A recuperação foi longa, ficou cerca de nove meses sob cuidados das instituições envolvidas. Nesse tempo, ele ganhou peso, realizou exames e tratamentos. Ganhou mais de 15kg até estar apto para a soltura". Esse ganho de peso e a melhora geral de sua saúde foram passos fundamentais para garantir que estaria pronto para enfrentar novamente os desafios da vida selvagem.

Critérios para o retorno à natureza e o papel do monitoramento

A decisão de soltar um animal selvagem reabilitado é precedida por uma rigorosa avaliação, que vai além da simples recuperação física. Para Guaraná, a equipe técnica verificou, por meio de uma bateria de exames, se ele estava completamente sadio. Além da condição clínica, um aspecto vital considerado foi a recuperação dos reflexos de caça, essenciais para sua sobrevivência na natureza. A onça-parda precisava demonstrar sua capacidade inata de predador, garantindo que não se tornaria dependente ou vulnerável após a soltura.

A escolha do local de soltura também foi estratégica: a mesma área onde Guaraná foi resgatado. "A soltura foi realizada na mesma área onde ele foi resgatado, pois é um lugar que já conhece, foi onde cresceu", explicou Lages. Esse detalhe minimiza o estresse da readaptação, permitindo que o felino utilize seu conhecimento prévio do território para encontrar alimento, água e abrigo. O transporte e a soltura foram acompanhados por um veterinário experiente, assegurando que o animal passasse por essa transição com o menor impacto possível. Guaraná marca um precedente importante, sendo o primeiro animal resgatado e posteriormente solto na Reserva São Francisco do Perigara a integrar o grupo de animais monitorados pelo Onçafari.

Tecnologia a serviço da conservação

Para acompanhar a readaptação de Guaraná e garantir sua sobrevivência, uma sofisticada rede de monitoramento foi implementada. Mais de 40 armadilhas fotográficas estão espalhadas pela reserva, capturando imagens que ajudam a equipe a identificar os animais, estudar seus comportamentos e avaliar a dinâmica da população. Além disso, rondas periódicas por terra e água, através do rio, complementam a observação direta dos animais.

A onça-parda também recebeu um colar especial equipado com GPS e VHF. Essa tecnologia permite um acompanhamento preciso de seus deslocamentos. "Os pontos GPS são registrados por satélites e enviados para o nosso banco de dados. Pelo sinal VHF do colar, com uma antena e um receptor, conseguimos sintonizar a frequência do colar e rastrear o animal em campo", detalha Marcos Lages. Os primeiros sinais são encorajadores: "O Guaraná é um animal super ativo e evita contato com humanos", o que indica uma reintrodução bem-sucedida e um comportamento selvagem preservado.

A onça-parda no contexto da fauna brasileira: desafios de conservação

A onça-parda (Puma concolor), também conhecida como puma ou suçuarana, é uma das espécies mais emblemáticas e adaptáveis das Américas. Sua vasta distribuição geográfica se estende do Canadá ao Chile, ocorrendo em todo o território brasileiro. Este felino, o segundo maior do continente, atrás apenas da onça-pintada, é notável por sua capacidade de ocupar diversos tipos de ambientes, desde florestas densas a regiões montanhosas e até áreas semiáridas.

Com hábitos predominantemente crepusculares e noturnos, as onças-pardas são animais solitários e oportunistas na busca por alimento, com uma dieta variada que as torna "generalistas" entre os felinos. Podem medir até 1,5 metro de comprimento (excluindo a cauda) e pesar entre 50 kg e 72 kg, embora machos maiores de 110 kg já tenham sido registrados, dependendo da região geográfica.

Apesar de sua adaptabilidade, a onça-parda enfrenta sérias ameaças em diversas partes de sua área de ocorrência. No Brasil, ela é classificada como vulnerável na lista nacional de espécies ameaçadas do ICMBio, um indicativo da pressão que a espécie sofre. Globalmente, a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) a classifica como "pouco preocupante", refletindo a diferença na situação entre populações regionais e o panorama geral da espécie. As principais ameaças incluem a caça ilegal, muitas vezes por retaliação a ataques a animais domésticos ou por caça esportiva, a crescente perda e fragmentação de habitats devido à expansão agrícola e urbana, e os atropelamentos em rodovias, um reflexo direto do avanço humano sobre áreas selvagens.

A história de Guaraná e a relevância da conservação em mato grosso

A jornada de Guaraná transcende a história de um único animal. Ela se torna um símbolo da importância de cada vida selvagem para o equilíbrio dos ecossistemas. A reintrodução bem-sucedida de um predador de topo como a onça-parda é crucial para a saúde ambiental da Reserva São Francisco do Perigara e de todo o bioma Pantanal, onde se insere. Essas áreas, ricas em biodiversidade, estão sob constante pressão de atividades humanas, tornando as ações de resgate, reabilitação e monitoramento ainda mais vitais.

O caso de Guaraná destaca a colaboração essencial entre órgãos governamentais, como a Sema-MT, e organizações não governamentais, como o Onçafari e o CRAS. Tais parcerias são a espinha dorsal dos esforços de conservação no país, exigindo não apenas recursos financeiros e técnicos, mas também uma paixão genuína pela fauna e seus habitats. A conscientização pública sobre os perigos enfrentados pela vida selvagem e a importância de proteger os corredores ecológicos e áreas de conservação são passos fundamentais para garantir que mais histórias como a de Guaraná tenham um final feliz.

A volta de Guaraná à liberdade é um lembrete poderoso de que é possível reverter quadros de degradação e oferecer uma segunda chance à natureza. É um convite à reflexão sobre nosso impacto no meio ambiente e a nossa responsabilidade coletiva na proteção da rica biodiversidade brasileira. Projetos como este não apenas salvam vidas individuais, mas fortalecem a resiliência de ecossistemas inteiros, garantindo um futuro mais equilibrado para todas as espécies.

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Fonte: https://g1.globo.com

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