A cidade de São Paulo, palco de um dos maiores programas de recapeamento asfáltico de sua história recente, enfrenta uma contradição persistente nas ruas: apesar dos investimentos significativos na recuperação de vias, os pedidos de tapa-buraco continuam a inundar os canais de atendimento da prefeitura. Somente no primeiro semestre deste ano, foram registradas quase 52 mil solicitações, uma média de 287 chamados por dia, evidenciando que a infraestrutura viária da capital paulista segue sendo um calcanhar de Aquiles para moradores e motoristas. O mais alarmante é que, desse total, 38% dos pedidos ainda aguardavam atendimento no início deste mês, deixando uma parcela considerável da população à mercê de buracos e pavimentos degradados, mesmo em trechos que, teoricamente, já deveriam estar recuperados.
O Custo da Qualidade: Vias Recapeadas Voltam a Deteriorar
O programa municipal de recapeamento anunciou a recuperação de mais de 1.700 trechos de vias nos últimos anos, um número expressivo que, no entanto, não conseguiu erradicar problemas crônicos. A situação levanta questões sobre a durabilidade e a eficácia das obras. Um exemplo contundente é a Rua Vergueiro, na zona sul da capital, que teve seu recapeamento iniciado no final de 2023. Apesar do serviço, falhas no pavimento e sarjetas danificadas persistem, frustrando quem utiliza a via diariamente.
O mecânico Jorge Brás de Melo, 61 anos, que trabalha no local há mais de quatro décadas, expressa o ceticismo popular. Segundo ele, a qualidade dos serviços atuais está aquém do padrão de outrora. “Tínhamos um concreto de 30 cm. Ele [o engenheiro] disse que não era a grossura, mas a qualidade. Fez mais fino, não colocou ferro. Por causa dos coletivos que passam aqui, se não colocar ferro e aumentar o concreto, não vai adiantar nada. É o nosso dinheiro jogado fora”, desabafa Melo, destacando a percepção de um investimento que não se traduz em resiliência estrutural. Essa preocupação ressoa com a experiência de muitos paulistanos que veem o asfalto ceder pouco tempo após as intervenções.
Especialistas reforçam a análise do mecânico. O professor José Leomar Fernandes Júnior, da Escola de Engenharia de São Carlos da USP, já alertou que as falhas nas sarjetas têm um impacto direto e devastador sobre o asfalto. A água escoa por essas canaletas e, quando malfeitas, permite a infiltração para a base do pavimento, diminuindo sua resistência e acelerando vertiginosamente a deterioração. Esse ciclo vicioso se repete em vias importantes como as avenidas Bernardino de Campos e Paulista, onde rachaduras também surgem em trechos que passaram por recapeamento recente, transformando a manutenção viária em uma luta de Sísifo.
Panorama dos Chamados: Onde a Batalha é Mais Intensa
A distribuição dos quase 52 mil pedidos de tapa-buraco no primeiro semestre revela um mapa das áreas mais críticas da cidade. Vias de grande fluxo e corredores importantes de tráfego pesado, como a Estrada de Itapecerica, Avenida Deputado Cantídio Sampaio, Avenida Ragueb Chohfi e a Estrada do M’Boi Mirim, figuram entre as que mais receberam chamados. A presença dessas avenidas na lista aponta para a intensidade do uso e a provável necessidade de soluções de engenharia mais robustas, capazes de suportar o tráfego constante de ônibus e caminhões.
Entre os bairros, Butantã lidera com 3.824 chamados, seguido por Campo Limpo (3.676) e Pirituba-Jaraguá (2.536). A predominância de bairros na periferia ou em regiões de expansão urbana e intenso fluxo de veículos de transporte público e individual sugere que a fragilidade do asfalto não é um problema isolado, mas uma questão sistêmica que afeta a mobilidade e a qualidade de vida em diversas camadas da população paulistana. O tempo médio de deslocamento, o custo de manutenção de veículos e até mesmo a segurança no trânsito são diretamente impactados pela condição das vias.
A Resposta da Prefeitura e o Olhar para o Futuro
Diante das críticas e dos números, a Secretaria Municipal de Subprefeituras (SMSUB) defende que o volume de solicitações para tapa-buraco tem caído. Em nota, a pasta afirma que o número de pedidos foi de 177,3 mil em 2023 e projeta uma redução para 113,1 mil em 2025, atribuindo essa melhora ao “maior programa de recapeamento da história da Prefeitura de São Paulo”. A SMSUB também ressalta que um mesmo local pode gerar múltiplos chamados, o que, segundo ela, significa que o total de solicitações não corresponde necessariamente ao número de serviços pendentes. A prefeitura informa ainda que o tempo médio de atendimento é de seis dias e que, entre janeiro e julho deste ano, foram tapados 126.144 buracos, uma média superior a 500 reparos por dia.
Os dados oficiais, contudo, contrastam com a percepção pública e a persistência de buracos em vias recapeadas. A disparidade entre a quantidade de intervenções e a durabilidade do asfalto aponta para a necessidade de um debate mais aprofundado sobre a qualidade dos materiais, a fiscalização das obras e a estratégia de longo prazo para a infraestrutura viária da metrópole. A questão dos buracos em São Paulo vai além do incômodo diário; é um reflexo do desafio constante de equilibrar investimento, qualidade e satisfação do cidadão em uma das maiores e mais complexas cidades do mundo.
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Fonte: https://www.metropoles.com